domingo, 10 de janeiro de 2010

Mudança de blog

Seguindo a sugestão de uma amiga, resolvi trocar o blogger pelo wordpress, não só por este usar software livre, mas também pelas facilidades. Aproveitei as mudanças e também troquei o nome do blog que passa a se chamar "Eu passarin", tirado do famoso versinho do Quintana que tanto gosto. O novo nome mantém, no geral, o mesmo espírito do "Contra-ordem", mas como um caráter afirmativo e poético, sem dúvida, maior :) Pra ir lá na nova casa basta clicar no link abaixo:

http://www.eupassarin.wordpress.com

sábado, 9 de janeiro de 2010

Leonard Cohen II

Puta merda! Teve um show em Londres, ano passado, com o velhinho (e charmosíssimo) Cohen alucinando como nunca no palco. Show de consagração, maravilhoso! Abaixo coloco apenas 1 música desse show e sua tradução, mas vale a pena olhar o show todo no youtube. Há relatos na web que esse foi um dos melhores shows do Cohen, com público chorando descompassadamente, sendo que "Hallellujah" teria sido o ponto alto da noite. Por isso escolhi essa música e também porque é a que melhor expressa a mistura dramática que Cohen faz entre a busca pelo amor e a busca pelo sagrado (ambos, aparentemente, sempre impossíveis de se alcançar, ou inexistentes). É como se Cohen estivesse sempre ajoelhado diante de suas mulheres como um judeu ajoelhado diante de seu Jeovah raivoso ou indiferente. Sugiro uma leitura atenta do texto, percebendo todas as referências ao texto bíblico, a situação amorosa do eu-lírico, o erotismo mesclado a veneração espiritual... uma das melhores composições de Cohen!



Pra entender melhor essa música é preciso sacar um pouco da história de David... aqui vai um minúsculo resumo pra se situar: David aparece, inicialmente, na narrativa bíblica como tocador de harpa. Mandava muito bem o garoto, compondo músicas e poesias em louvor à deus (David compôs os salmos... lembre que o termo Aleluia aparece lá e significa "Louvem a Jah (abreviatura de Jahve)").Tocava tão belamente que fazia as ovelhas adormecerem (era pastor), acalmava o rei de Israel, Saul, e até exorcisava os demônios dos possuídos. E você deve lembrar, também, que foi esse mesmo David que derrotou Golias e assim pôde se casar com a filha do rei e, depois, se tornar o rei de Israel. Certa noite o rei David, que tinha fama de "catador" (há boatos biblícos de que por ele teriam passado mais de 400 mulheres - olha aí o paralelo de novo com o Cohen e sua música!), se encantou por Betsabá (uma das mulheres mais gostosas do velho testamento). Ele tava em cima do telhado e a viu se banhando em seu quintal do jeito que o diabo... ah, vc sabe, né... (há uma discussão entre os devotos (dicussão a-la-Capitu) se Betsabá não teria se banhado ali de propósito para atiçar o desejo do rei David... mas, só deus mesmo sabe dos movimentos do coração de uma mulher, ou nem ele...). Como David era rei e podia tudo, forçou-a a se entregar e a conheceu no mais puro sentido bíblico. Bet engravidou, claro. Só que tinha um probleminha: ela era casada! Pra esconder a cagada David mexe uns pauzinhos e manda o marido de Bet, que era soldado, pra batalha mais sangrenta de toda a guerra de unificação de Israel. E pronto, o cara morre ali. Todos esses pecados foram desmascarados pelo profeta Natã, enviado direto do senhor. David se arrepende (demonstra arrependimento sincero) e passa a amar mais ainda a deus e sua justiça (mesmo tendo essa justiça ceifado a vida de seu filho, resultado do adultério com Betsabá).

"Hallellujah"

Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well maybe there's a god above
But for me all I've ever learned from love
Is how to shoot someone who outdrew you
And it's not a cry that you hear tonight
It's not some pilgrim who claims to see the light
It's a cold and it's a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Baby, I've been here before
I know this room and I've walked this floor
You see, I used to live alone before I knew you
I've seen your flag on the marble arch
But love is not a kind of victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Well there was a time when you let me know
What's really going on below
But now you never even show it to me do you
But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I've done my best, i know it wasn't much
I couldn't feel, so I learned to touch
I've told the truth, I didn't come (here to London) just to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah


Aleluia

Agora eu soube que havia um acorde secreto
Que David tocava e agradava ao Senhor
Mas você realmente não liga para música, não é?
É assim:
A quarta, a quinta
A menor cai, A maior sobe (além da conotação músical, pode ser traduzido como: uma ‘pequena queda’ e ‘uma grande restauração (erguida)’, como David que cai e depois restaura sua aliança com deus)
O rei perplexo compondo Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Sua fé era forte mas você precisou de provas
Você a viu tomando banho do telhado
A beleza dela e a luz do luar te arruinaram
Ela amarrou você
numa cadeira de cozinha
Ela destruiu seu trono e ela cortou seu cabelo (Sansão, cujos cabelos lhe davam poder, também cai em troca de uma paixão... mais um personagem que cai por uma mulher)
E de seus lábios ela extraiu a Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, talvez exista um Deus lá em cima
Mas tudo que sempre aprendi do amor
Foi como atirar em alguém que te "desarmou" (ou traiu, ou alguém que sacou a arma primeiro... não há uma tradução direta para "outdrew")
E não é um choro que você ouve esta noite
Não é um peregrino que clama pra ver a luz
É um frio e é um despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Baby, eu já estive aqui antes
Eu conheço este quarto e andei neste chão
Eu costumava viver sozinho antes de te conhecer
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
Mas o amor não é uma Marcha da Vitória (lembre que David unifica Israel pela guerra, em nome do senhor!)
É um frio e despedaçado Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Bem, houve um tempo em que você me deixava saber
O que realmente se pasava aí abaixo (por baixo, dentro)
Mas agora você nunca nem mesmo me mostra, não é?
Mas se lembre de quando eu me movia em você (me instalei em você)
E a pomba sagrada (espírito santo) também se movia em você
E cada respiração exalada era Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Eu fiz o meu melhor, não foi muito
Eu não podia sentir, então aprendi a tocar
Eu disse a verdade, eu não vim te enganar
E mesmo assim
Deu tudo errado
Eu vou ficar diante do Senhor da Música
Sem nada na minha língua a não ser Aleluia

Aleluia, Aleluia
Aleluia, Aleluia

Leonard Cohen I


Conheci o canadense Leonard Cohen pelo meu amigo-poeta Cássio (que aliás me apresentou um monte de coisas legais, dos Beats ao Belchior - o Dylan brasileiro). Conheci primeiro a música. É sempre estranho o primeiro contato com a música do Cohen: sua voz grave (em grande medida por causa do cigarro) numa melancolia sepucral cantando músicas que mais lembram, como já disse Dylan, orações, ou cânticos de pastores-perdidos-na-vida, falando de seus amores como quem se dirige ao sagrado. Ouvindo mais fui percebendo a qualidade das letras (poesia pura) e fui entrando em seu mood (aquela história de Ler-o-Autor que disse no post anterior). Percebi que ele deveria ser, antes de tudo, poeta. Fui atrás e dito-e-feito: já tinha escrito romances e muita poesia, mas resolveu ser cantor porque queria que sua poesia chegasse a mais gente. E conseguiu! Chegou até aqui, em Campinas, nos meus ouvidos! :)

Como é acima de tudo poeta, há pouca diferença entre as letras de suas músicas e poesias. Apesar de ter uma escrita muito próxima a pegada beatnik, os beats-famosos (ginsberg, kerouac etc) não gostavam do Cohen (dizem que é porque ele se vestia muito bem, sempre de terno). Então Cohen ficou meio a parte. Sua poesia tem uma mistura louca de zen-budismo (viveu uns 5 anos num mosteiro) com temas do judaísmo, tudo isso sobre o prisma da vida moderna e de suas paixões, o eixo em torno do qual parece que tudo gira, a mulher e seu apaixonamento.

Tô com o livro "Stranger Music", um taludão com compilação de letras de música e poesia, tudo em inglês. Tava feliz pq achei que iria fazer traduções inéditas aqui, mas descobri que tem uma antologia do Cohen em português: "Atrás das linhas inimigas de meu amor". Tudo bem, sigo traduzindo... :)


MARITA

Marita
por favor me ache
eu já tenho quase 30


A RAZÃO PORQUE ESCREVO

A razão porque escrevo
é pra fazer alguma coisa
tão bonita como você é

Quando estou com você
Eu quero ser o tipo de herói
que eu queria ser
quando eu tinha sete anos
um homem perfeito
que mata


VOCÊ NÃO TEM QUE ME AMAR

Você não tem que me amar
só porque
você é todas as mulheres
que eu sempre quis
Eu nasci pra te seguir
toda noite
enquanto eu sou ainda
os vários homens que te amam

Eu te conheci numa mesa.
eu tive tua palma entre minhas mãos
num taxi solene.
Eu acordei sozinho
minha mão em sua ausência
no Hotel Disciplina.

Eu escrevi todas estas canções pra você
Eu queimei velas vermelhas e pretas
moldadas como um homem e uma mulher
Eu me casei com a fumaça
de duas pirâmides de sândalo
Eu orei por você
eu orei pra que você me amasse
e pra que você não me amasse

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A poesia de Fabio Weintraub: primeira aproximação

Andando pela biblioteca, peguei por impulso o livro "Novo Endereço" do Fabio Weintraub simplesmente porque na capa tava lá, "Prêmio Casa de las Américas", uma das maiores premiações literárias do novo continente, oferecida por uma organização cultural de Cuba, criada logo após a revolução cubana. Esse prêmio já revelou, dentro outros, Roque Dalton na poesia (há traduções que fiz aqui mesmo no Contra-ordem) e Eduardo Galeano (lá pros idos de 70, quando ele estava ainda longe de ser "conhecido"). Confesso que sonho com meu livrinho de poesia sendo reconhecido nessa Casa de companheiros de luta e letras... (esses sonhos bobos que a gente tem que ter). Acho que parte do impulso que me fez pegar o livro na prateleira tinha, também, motivações obscuras... dentro de mim, lá num canto escuro e sujo, como aqueles no fundo dos bares onde as caixas de cerveja cultivam um cheiro doce e azedo, bem de lá, uma vozinha ogra me sussurrava: não esquenta, jeff, a poesia desse cara nem deve ser grande coisa...

Dispersado os ogros interiores, comecei a ler o livro, edição bilingue espanhol/português bem acabada. Cheguei na metade dele e disse... que coisa insossa... (os ogrinhos das caixas de cerveja voltaram batendo palmas), nem parece poesia... cadê o choque? a força? o frêmito? (os ogrinhos uivavam levantando placas com meu nome). Mas, (e este post não teria função se não fosse por esse "mas"), continuando a leitura até o final do livro, a poesia se manifez, se frescou, fulminou qualquer possibilidade de contra-leitura. À medida que avançava nos versos foi se me abrindo aos poucos os seus lugares de força, o andor de sua temporalidade, os espaços donde se espia a vida, em resumo, foi se me revelando sua luz própria! E eis que a dicção do poeta, a gramática-poética própria do Fabio foi fazendo efeito, vagarosamente, como um anestésico que se toma no dentista e vai nos embobecendo a língua, até parecer que ela não é mais nossa. Era a luminiscência própria da fala do poeta lumiando as páginas todas.

Fabio Weintraub usa uma linguagem muito simples, coloquial, descrevendo situações banais que todos vivemos, cheio de históriazinhas do diadia citadino, dos perdidos carinhos, do lirismo dos semáforos, dos momentos que só o menino sozinho no banco de trás do carro pode perceber e guardar numa caixa de música de memória... assim ele vai tecendo essa luminura tênue, uma luzinha azulada com a qual nos mostra com delicadeza (e crudelíssimo distanciamento) pequenas cenas da família, das relações, das pessoas sozinhas nas cidades...

Pra ler poesia é preciso paciência e abertura pra conseguir, aos poucos, captar a dicção do poeta, sua gramática-de-emoções, o ponto donde fala, com que tom de voz, olhando pra que horizontes, com que dor em que parte do corpo, com que cor de sorriso frio, dando às costas a que continentes, dando à mão pra quem.... essa coisa-toda que vamos lendo pralém das linhas enquanto lemos uma obra... vou chamar isso de Ler-o-Autor. Em todo bom livro de poesia existe uma ficção que vai se construindo nos espaços entre as palavras, entre os poemas; vai se construindo o personagem-do-autor. Ler-o-Autor é ler a invenção que o poeta faz de si mesmo para si e seus leitores. Ler-o-autor é entender se o poeta vê o mundo de cima de um mirante, ou escondido no banco dos fundos do ônibus cheio, se voando através dos tempos numa luz amarela, se por um calmo olhar frio diante dos fatos incontroláveis e incontornáveis... Pra Ler-o-autor é preciso abertura de olhar, é preciso se deixar guiar, confiar no autor. Por isso a importância de se deixar ler pelo livro. (Sem ogros, portanto, te sussurrando sobre como deve ser a obra!)

Aqui vai um poema dessa simplicidade lírica do Fabio, mesmo que em um só poema (assim que reler o livro digo mais de sua gramática-poética e tento trazer trechos de vários poemas):

Mais magro

Mais magro
Meu amigo está mais magro
Volto a encontrá-lo
dois ou três verões mais tarde
e chego mesmo a dizê-lo:
Você está mais magro.
Problemas de intestino...
responde-me esquivo
... já estive pior, agora
voltei a engordar.
Não peço detalhes
mas vejo o ombro mirrado
entre as alças da regata
Evito tocá-lo
pois a mera proximidade física
parece estranha agora
que meu amigo está mais magro

Novamente juntos
caminhamos pela orla marítima
Eu lhe recito algum verso
ele me ensina outro insulto
e há quase alegria de trégua
não fosse o fato
dele estar mais magro

Se ainda ontem tocassem
os telefones insones
na barra da madrugada
e meu amigo dissesse
palavras de testamento
eu sairia correndo
para deitar-lhe compressas
na testa já repartida

Se fosse eu o afogado
dentro da onda invisível
de bílis, lua e silêncio
ele pagava o resgate
limpava o sal de meus cílios
me devolvia em segredo
sobre a toalha mais limpa

Mas hoje estamos exaustos
há um dreno em nossa bondade:
minha boca só tem dentes
e meu amigo
está mais magro

(de Novo endereço, 2002)

(se alguém quiser ver o próprio autor declamando esse poema vá logo aqui)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

É sempre bom lembrar...

Retomando os estudos reencontrei coisas importantes de sempre destacar...

“(...) como negamos aos diferentes domínios ideológicos que desempenham um papel na história um desenvolvimento histórico independente, deduzem que lhes negamos também qualquer eficácia histórica. É partir de uma concepção vulgar, não dialética, de causa e efeito, como pólos que se opõem de maneira rígida, sem levar em conta o jogo de ações recíprocas. Esquecem que um elemento histórico, uma vez engendrado por outros elementos, em última instância, econômicos, passa por sua vez a ter ação sobre o meio que o rodeia e sobre suas próprias causas.” Engels em Carta a Mehring


“Segundo a concepção materialista da história, o fator que, em última instância, determina a história é a produção e reprodução da vida real. Nem Marx nem eu afirmamos, uma vez sequer, algo mais do que isso. Se alguém o modifica, afirmando que o fato econômico é o único fato determinante, converte aquela tese numa frase vazia, abstrata e absurda.” Engels em carta a Bloch

"classes sociais diferentes servem-se de uma só e mesma língua (...). consequentemente, em todo signo ideológico confrontam-se índices de valor contraditórios (e) o signo se torna a arena onde se desenvolve a luta de classes" (Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem)

"As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. É portanto claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. (...) A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais. (Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem)

domingo, 3 de janeiro de 2010

que venha

Trecho final de uma poesia de Elisa Lucinda:

"(...)
Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.
Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.


Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.
Sempre quis um amor não omisso
e que sua estórias me contasse.
Ah, eu sempre quis uma amor que amasse."

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Você ri

Esta é a primeira versão de um videozinho que fiz pros amigos da banda "Paramnese (provisória)"... há algumas coisas que ainda não me agradam, mas eis...




Paramnese: É uma perturbação do reconhecimento em virtude da qual o fato evocado não corresponde ao objeto original da percepção, embora não repugne isto à razão. Assim, o paciente revendo um irmão, considerará seu pai. Outras vezes a paramnésia consiste no processo mental segundo o qual uma atividade de imaginação seria considerada atividade mnésica. Em virtude da paramnésia surge o fenômeno do já visto: pessoas observadas pela primeira vez surgem aos olhos do paciente como antigos conhecidos. Há também o fenômeno do nunca visto: um antigo objeto, que o paciente já viu inúmeras vezes, é considerado pelo paciente como coisa inteiramente nova. Observa-se a paramnésia na psicastenia, na confusão mental, na demência senil, na arteriosclerose cerebral, na histeria.

sábado, 26 de dezembro de 2009

à nova rede
da casa nova
balanço velhas
novas memórias

uma brisa...

à pele
à gora
sempre boas
novas

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

andando nos andes

Sou apaixonado pela música latina... e, pela andina, em especial. Vários grupos e cantores ajudaram a divulgar a cultura andina, como victor jara, violeta parra, inti illimani, quilapayun e muitos outros. Abaixo segue duas músicas das minhas preferidas, que me deixam sempre bem :) A 1a é "El Tinku" cantada por Inti Illimani (espero ainda, na minha vida - quem sabe agora em janeiro - ver um show deles!) e depois "Angelita Huenuman" de Victor Jara.

Pra completar o quadro todo, coloco logo ali um link pra uma linda exposição sobre as pinturas murais do Chile de Allende! Muito boa! Linda! Vão lá, custa só um clique: http://www.abacq.net/imagineria/expoa.htm


1. El Tinku
(Tinku é uma luta ritual do norte da bolívia... luta de opostos pra gerar a unidade das tribos do norte e do sul e garantir a fertilidade da terra)





2. Angelita Huennuman (de Victor Jara, interpretado, aqui, pelo grande Patricio Castillo... infelizmente, não achei no youtube algum vídeo com a voz do Victor, que acho linda.)




"En el valle de Pocuno
donde rebota el viento del mar
donde la lluvia cria musgos
vive Angelita Huenuman.

Entre el mañio de los “huallas”
el avellano y el pitran
entre el aroma de las chiclas
vive Angelita Huenuman.

Cuidada por cinco perros
un hijo que dejo el amor
sencilla como su chacrita
el mundo gira alrededor.

La sangre roja de copihue
corre en sus venas Huenenuman
junto a la luz de una ventana
teje Angelita su vida.

Sus manos bailan en la hebra
como alitas de chincol
es un milagro como teje
hasta el aroma de la flor.

En sus telares, Angelita
hay tiempo, lagrimas y sudor
estan las manos ignoradas
de este mi pueblo creador.

Despues de meses de trabajo
el chamal busca comprador
y como parajaro enjaulado
canta para el mejor postor".


Victor fez essa música depois de conhecer Angelita:

"Rita: Angelita Huenumán, mi mamá, tuvo siete hijos. Tres sobrevivimos al parto y cuatro nacieron muertos, pero ahora sólo quedamos dos hermanos, porque mi hermana Juana del Carmen falleció en el 94.

Andrés: Mi infancia fue muy sacrificada. No pude estudiar por mucho tiempo, porque con doce años comencé a trabajar. Era el único hombre de la casa y tenía que ayudar a mamá en la chacrita, para que ella pudiera tejer. Con las cosas que hacía en su telar pagaba los abonos y los créditos que teníamos que pedir al banco. Ella logró comprar dos hectáreas de tierra que nos ha dejado, y ese es un recuerdo grande que tenemos gracias a su sacrificio. Cuando niño, yo iba con ella a Contulmo o a Cañete para vender sus alfombras, sus mantas y sus ponchos. En ese tiempo no había locomoción y teníamos que ir caminando. En uno de esos viajes conoció al director de la escuela agrícola de Contulmo y fue él quien le habló a don Víctor Jara de Angelita, y lo llevó un día a nuestra casa para que la conociera. Ella, entonces, tendría cerca de cincuenta años. Cuando vino don Víctor yo estaba en ese momento en la escuelita y no lo vi, pero luego mi mamá me contó que habían venido a visitarla y se reía contándolo. ¿De dónde diablos serán esos que vinieron a verme y me sacaron fotos?, decía."

Aqui um vídeo que mostra a família de Angelita, hoje: http://www.youtube.com/watch?v=UdE4zwAyfoU

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O tempo perdido


(Jacques Prévert)

Diante da porta da fábrica
O trabalhador súbito pára
O dia lindo o puxa pela roupa
E como ele se volta
E olha o sol
Tão rubro tão redondo
Sorrindo no seu céu de chumbo
Dá uma piscada
Familiar
Diz então camarada Sol
Não achas que é
Uma grande idiotice
Dar um dia como este
A um patrão?

domingo, 20 de dezembro de 2009

Ao coração do palhaço

entre ingênuo e afoito,
arma, de novo, seu vôo
na garganta do futuro

mas o vento estanca
o sonho é mudo

e o palhaço na pose
de aviador intrépido
(é, assim, de braços abertos)
abre os olhos
aos poucos
enquanto os risos cessam

(e o silêncio pesa como uma lua)

com um risinho frouxo
vai encolhendo os braços
e guardando o vôo
nos bolsos
de trás,
(um pouco triste,
é verdade,
mas sem alarde.)

e é justo quando
o vento vem
e lhe bate
lhe bate
bate

(e os risos recomeçam
e o poema recomeça)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ferreira


O Ferreira de ontem:

"Lembro-me muito bem do dia em que tomei conhecimento de que, para me tornar um poeta, teria que fazer da poesia o centro de minha vida. Com um volume dos contos de Hoffmann nas mãos - livro comprado no sebo, de páginas manchadas de fungo - me perguntei que sentido tinha fazer literatura. Os contos de Hoffmann não me diziam respeito, e suas palavras impressas naquelas páginas mofadas me davam a impressão de que a literatura estava mais perto da morte que da vida. Enquanto isso, lá fora, sobre o telhado de minha casa, zunia a tarde maranhense, iluminada, cantando na copa das árvores. Eu tinha vinte anos e devia escolher entre a literatura e a vida. Escolhi as duas, convencido de que a literatura tinha que ser vida também. De fato, as tardes e manhãs iluminadas já não me bastavam. Por isso me voltara para a literatura. Não para fugir da vida ou negá-la e sim para acrescentar-lhe o sentido que ela devia ter e não tinha. Noutras palavras: voltei-me para a literatura pensando resgatar a vida. Naquela tarde entendi que para a literatura ter sentido e emprestar sentido à vida, era necessário que me entregasse a ela integralmente, de corpo e alma."

"Sou um poeta do Nordeste brasileiro, um poeta do Maranhão, da cidade de São Luís do Maranhão. Sou um poeta da Rua do Coqueiro, da Rua dos Afogados, da Quinta dos Medeiros, do Caga-Osso, da Rua do Sol e da Praia do Caju. Um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de Dona Zizi, irmão de Dodô e de Adi, de Newton, de Nelson, de Alzirinha, de Concita, de Leda, de Norma, de Consuelo, amigo de Esmagado e de Espírito da Garagem da Bosta. Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento menor, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria, abafada em soluços, a tragédia da vida-nada, da vida-ninguém. Se algum sentido tem o que escrevo, é dar voz a esse mundo sem voz"

... e o Gullar de hoje:

"Muito complicado! Abandonei todos os mitos daquela época. Não creio mais em luta de classes. Já aprendi que o capitalismo é como a natureza: invencível." (Entrevista à revista Bravo! - 2009)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Clarice


“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.Pois juro que a vida é bonita.”

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.É pouco, é muito pouco.”

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Caio



“Queria tanto poder usar a palavra voragem. Poder não, não quero poder nenhum, queria saber. Saber não, não quero saber nada, queria conseguir. Conseguir também não - sem esforço, é como eu queria. Queria sentir, tão dentro, tão fundo que quando ela, a palavra, viesse à tona, desviaria da razão e evitaria o intelecto para corromper o ar com seu som perverso. A-racional, abismal. Não me basta escrevê-la - que estou escrevendo agora e sou capaz de encher pilhas de papel repetindo voragem voragem voragem voragem voragem voragem voragem sete vezes ao infinito até perder o sentido e mais nada significar (...) Eu quero sê-la, voragem”. Caio F., No centro do furacão

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sobre um Poema

(Herberto Helder)

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Provérbios: As palavras de Agur

"Há três coisas que são maravilhosas demais para mim, sim, há quatro que não entendo:
o caminho da águia no céu, o caminho da cobra na penha, o caminho do navio no meio do mar e o caminho do homem com uma mulher."

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Delícia

(Hilda)

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

***
Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mal ditos, bem feitos II

-"Eu assopro, mamãe, e assopro,
e o ardor de dentro não passa..."

- "Calma, filhinho, não chora,
antes de sarar, você casa."

Mal ditos, bem feitos I

Esqueça o que as novelas mostram...
Muito menos Hollywood e Cia. ...
Em geral, fião, amor...

é à última vista.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Eugenio de Andrade II

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.