segunda-feira, 5 de maio de 2008

Paulo Henriques Britto I

Quando li alguma coisa do Paulo Henriques pelas primeiras vezes eu continuei achando que era tudo baboseira... que não passava de exercícios linguísticos de encaixar a prosa mais coloquial dentro das formas mais rígidas. Passadas essas primeiras impressões, não sei porque resolvi ler um livrinho seu inteiro. E foi aí que as coisas fizeram um pouco mais de sentido. Ainda continuo achando que muitas vezes ele parece não ter nada a dizer e fica realizando poemas pra treinar a mão e passar o tempo. Mas tem umas coisas legais na poesia do cara. Esse jeito de buscar apagar o eu, de ser muito engenheiro e limpo no escrever, de limar as palavras com silêncio e obrigá-las a se encaixarem numa forminha sem que pareça que deu trabalho (você lê, muitas vezes, como se fosse um texto corrido... mas tem um puta estudo de métrica e ritmo arquitetado, ou, quem sabe, o cara tem uma puta sorte). Tem um jeito de ser-máquina que escreve, sem história, sem vestígios, apenas um intelecto que observa atentamente o mundo, que observa atentamente o seu próprio ato de observar o mundo... é claro que por trás disso tudo tão os sentimentos todos, só que saindo aos poucos, de forma controlada... nesse sentido é um seguidor de Cabral, com um mesmo tom filosófico-metalinguístico só que impregnado de prosaísmo de esquina (por vezes até forçado demais, cult, do tipo: "quero parecer uma conversa de buteco na boca de um poeta culto!").

Vou postar os dois melhores poemas que encontrei nessa leitura ráida de "Trovar Claro"... um hoje, outro amanhã... Boa leitura!















I

Existe um rumo que as palavras tomam
como se mão alguma as desenhasse
na branca expectativa do papel

porém seguissem pura e simplesmente
a música das coisas e dos nomes
o canto irrecusável do real.

E nessa trajetória inesperada
a carne faz-se verbo em cada esquina
resolve-se completa em tinta e sílaba
em súbitas lufadas de sentido.

Você de longe assiste ao espetáculo
Não reconhece os fogos de artifício,
as notas que ainda engasgam seus ouvidos.
Porém você relê. E diz: é isso.

(Paulo Henriques Britto em "Trovar Claro")