domingo, 9 de dezembro de 2007

Para se fazer um talismã

Uma tradução livre que fiz do poema de Olga Orozco, poetisa argentina.

Para se fazer um talismã (Olga Orozco)

























Só é necessário teu coração
feito à viva imagem de teu demônio ou de teu deus.
Apenas seu coração, como um incensário em brasa para a idolatria.
Nada mais que um indefeso coração enamorado.

Abandone-o às intempéries,
deixa-o
lá onde a erva uiva suas queixas de ama louca
e não o permite dormir,
lá onde o vento e a chuva derrubam seu castigo
em um golpe de azul-calafrio
mas sem convertê-lo em mármore
e nem partí-lo em dois
lá onde a escuridão abre suas tocas à todas as selvagerias
e não o deixa, ah,
e não o permite
esquecer...

Ajeita-o, depois, do alto de seu amor
ao fervedouro fundo das brumas.
Então, deixa-o secando no surdo regaço da pedra,
e escava nele, com uma agulha fria e funda,
até arrancar o último grão de esperança.

Permita que o sufoquem as febres e a urtiga,
que o sacuda o trote ritual das matilhas,
que o envolva a injúria feita com os farrapos de suas antigas glórias.
E quando um-dia for um-ano o aprisione com as garras dum século,
antes que seja tarde, antes que seja nunca,
antes que se converta em múmia deslumbrante,
e abre de par em par, pétala-por-pétala,
todas sua feridas:
e as exiba ao sol piedoso do meio-dia como um mendigo o faria,
e lamenta, em delírio, no deserto,
até que somente o eco
de um nome cresça
ali dentro
como a fome
cresce em fúria:
o golpear incessante da colher contra um prato vazio.

Se ainda pulsa,
chegou até aqui como a viva imagem de teu demõnio ou teu deus:
eis aí teu talismã
mais inflexível que a lei,
mais forte que as armas e o mal de teu inimigo.
Guarde-o na vigília de teu peito como um sentinela,
mas... alerta!
Pois pode crescer aí dentro como a mordedura da lepra,
pode se tornar seu carrasco:
o inocente monstro, o insaciável comensal de tua morte!