quinta-feira, 22 de outubro de 2009

menin ninho

sonhei
que jogava bola
no alto da rua em que morava
quando eu era menino

e a chuva
pesada
se aproximando
- o céu fechando a cara -
e aquela coisa toda
que é impressionante pacas
prum guri:

trovões! ventos! raios!

todos os adultos correndo pra suas casas
e nós, ali, concentrados,
jogando no eixo do universo,
no centro desse mistério
que éramos:
pequenos deuses num olimpo improvisado
com giz, pedras e chinelos

(o tempo suspenso
prendendo a respiração
só pra gente marcar um gol
e fazer um drible)

e relâmpagos! e trovões! e ventos!
(e essas coisas todas
que ainda hoje me põe medo)

e uma eletricidade enchendo os corpos
papéis e poeiras rodopiando,
portas batendo,
as copas em desespero,
era a noite chegando cedo...

sim! e a gente sabia o que tava em jogo:
era o fim ou não dos tempos...
como se o próprio deus carrancudo
- e com suas longas barbas brancas -
parasse pra ver nossa pelada
e vibrasse a cada lance

e quando a chuva começava
(com aquelas gotas pesadas de moedas de 50 cruzeiros)
a gente despencava rua abaixo
correndo
gritando
dando risada

se molhando e rindo
das nossas próprias risadas

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ontem subia a rua de casa de bicicleta
e é uma ladeira
como na antiga rua sevilha
na minha infância de sorocaba

e de repente
me peguei na magrela
num lento zigue-zague rua acima
dum lado pro outro
do outro prum lado
assim como quando
era menino

(que é mais fácil
pra embalar a subida
e ir descansando as pernas)

e sorri
- satisfeito -
dessa ciência-menina
que ainda carrego
(que ainda me carrega)

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I.
acordei assustado
cum relâmpago
ou com dois ou três
olhares se abrindo
em meu peito
(e talvez um e outro fossem o mesmo)

fiquei olhando pro teto
e pensando
como
as moças todas
que amei e amo (e
mesmo as que não me amaram)
são as meninas pra quem
quis dar a mão
e balançar o braço

como mulher é uma palavra
impronunciável
se não vejo qualquer coisa
da menina assustada
me estendendo a mão

mas sei que mulher também
não é só menina-escondida

é também o cheiro úmido das folhas
apodrecendo na mata
esse húmus e essa vertigem toda
de lábios e olhares e relâmpagos
(e que ainda hoje me amedrontam)

II.
eu sei disso,
mas é que
esta semana
tem chuvido
e o menino lá
- de cabelin graçado -
saiu debaixo
da cama
assustado
e deitou no meu colo
(pedin dum carin).

E ele vai despindo
a vertigem do olhar
das mulheres que
amei e amo (e
também das que não me amaram)
e me revelando em todas
uma menininha de canto
esperando pra ser chamada
pra brincar

assim como
uma garoa sobre um lago
é a semente dos ventos
embrulhada
num trovão de raios.

III.
e dou carinho ao menino
faço um ninho
no seu cabelin caracolado
e durmo abraçado com ele

mas confesso que me assusta
um pouco
de manhã
essa criança solta
no meio das coisas
adultas
que tenho espalhadas
perdida no meio
do meu sem-tempo
de ver o vento nas árvores

mas vou deixá-la
zanzando
pela casa

sem reprimendas

pelo menos enquanto
essas chuvas
não passam

quem sabe
nao me ensina
velhas-novas-ciências?

quem sabe
não encontra
as chaves?

quem sabe
não me faz dar
aquelas risadas
desses ventos
desse olhares raios lábios
dessas trovoadas