quarta-feira, 25 de julho de 2007

Victor Jara I

Victor Jara e sua música me emocionam profundamente (tanto, que estou reescrevendo este post pela 5a vez e não consigo me encontrar nele e me emociono mesmo...). Tive acesso, finalmente, a toda sua discografia. Toda a poesia de Victor Jara exala a ternura e a humanidade de seu povo que, mesmo esmagado pelo horizonte de sua classe, encontra a vida nas frestas, nas fímbrias, e a deseja mais e mais.

Mais do que sua poesia é toda sua vida que me toca. Sua obra é sua vida. Não vou colocar aqui uma biografia do cantor pois vocês podem encontrar várias na internet. Mas gostaria de prestar uma homenagem a Victor postando aqui seu último poema.

No dia 11 de setembro, sabendo do golpe que derrubava Allende, Jara correu para a universidade onde trabalhava para se juntar aos 600 estudantes que ocupavam o prédio. Dali, mesmo sem muito armamento, resistiriam aos militares. Os tanques cercaram a universidade. Um companheiro vendo Jara com seu violão lhe disse: "Chegou a hora de trocar o violão pelo fuzil!". Victor Jara respondeu, de maneira simples, que não sabia atirar e continuaria a usar sua melhor arma... cantou sem parar, animando a resistência. Depois de uma luta desigual, foram obrigados a se render. A multidão foi levada para o estádio Chile. Victor foi rapidamente reconhecido por um oficial: "Você é aquele maldito cantor, não é?". Separado dos demais, foi duramente espancado. Quando o soltaram ensanguentado, junto aos companheiros na arquibancada, Victor presenciou cenas terríveis... estudantes torturados, outros executados ao tentarem escapar... outros, ainda, suicidando-se, perdidos em desespero. Percebeu logo seu destino. Pediu pedaços de papel e lápis aos companheiros. Mal acabara de escrever este que seria seu último poema, militares o puxavam para conduzi-lo ao Estádio Nacional do Chile. Antes de sair, conseguiu clandestinamente passar o papel para um companheiro que, passando a outro e a outro e a outro, salvaram o manuscrito.

Poucos dias depois, a esposa de Victor identificou seu corpo num terreno baldio. Apresentava sinais nítidos de tortura e 34 balas pelo corpo. Os militares, indignados com o poder (humano) de sua poesia e música, haviam brutalmente dilacerado suas mãos. Não percebiam assim que semeavam dez mil outras.

Somos cinco mil aquí.
En esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil.

¿Cuántos somos en total
en las ciudades y en todo el país?

Somos aquí diez mil manos
que siembran y hacen andar las fábricas.

¡Cuánta humanidad
con hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura!

Seis de los nuestros se perdieron
en el espacio de las estrellas.
Un muerto, un golpeado como jamás creí
se podría golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitar
se todos los temores, uno saltando al vacío,
otro golpeándose la cabeza contra el muro,
pero todos con la mirada fija de la muerte.

¡Qué espanto causa el rostro del fascismo!

Llevan a cabo sus planes con precisión artera sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas.
La matanza es acto de heroísmo.

¿Es éste el mundo que creaste, Dios mío?
¿Para esto tus siete días de asombro y trabajo?

En estas cuatro murallas sólo existe un número que no progresa.
Que lentamente querrá la muerte.

Pero de pronto me golpea la consciencia
y veo esta marea sin latido
y veo el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona lleno de dulzura.

¿Y Méjico, Cuba, y el mundo?
¡Qué griten esta ignominia!

Somos diez mil manos que no producen.
¿Cuántos somos en toda la patria?

La sangre del Compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas.
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

Canto, que mal me sales cuando tengo que cantar espanto.
Espanto como el que vivo, como el que muero, espanto.
De verme entre tantos y tantos momentos del infinito
en que el silencio y el grito son las metas de este canto.

Lo que nunca vi, lo que he sentido
y lo que siento hará brotar el momento....

(Espero postar mais sobre Victor... pra quem quiser: tenho a discografia em mp3, todas as letras e documentário)