POESIA - SERGIO MELLO
toda poesia devia ser tão vagabunda
quanto aquela última fatia de pizza doce de mussarela
na estufa da padaria
brindes perfumados do lava-rápido
pendurados no espelho retrovisor
artesanato de cadeia
toda poesia devia ser tão vagabunda
quanto o adolescente que abandona o batente
pra ficar em casa vendo Chaves
quanto o hiponga espaçado ao sol de segunda-feira
na grama do jardim do Citibank
a poesia não devia se dar ao respeito
esquadrão de Etty Frazers
usando batas de margaridas
e se aproveitando do tumulto da feira-livre
pra esbarrar no cacete do menino do carreto
pederastas que já passaram dos 60
comprando bugigangas na 25 de Março
pra trocar por enrabadas potentes dos crioulos do Malecón
a puta que acredita que nenhuma loteria
equivale a um chicle de bola de boa safra
toda poesia devia ter o lirismo desolado
de um campinho de futebol de várzea
G. Corso tentando abrir uma lata de salsichas
com o bico de uma caneta
C. Bukowski retomando a consciência aos poucos
com desenhos da Hanna Barbera
um velho surdo reproduzindo o escudo do Palmeiras num quadro
usando pregos e linha
só acredito na poesia que prega o desespero
só acredita na poesia que não diz o menu
do jantar de ontem
e sim rasga o próprio estômago
e despeja tudo como se sacudisse uma bolsa feminina
de cabeça pra baixo
flores
peixes
e borboletas
deviam ser excluídos da poesia
a lua devia constar apenas
em mapa astral
toda poesia devia ser tão falsa
quanto um Bono Vox gentil
quanto a alegria diante das fontes amestradas do Ibirapuera
eu menti a um juiz sobre um atropelamento
pra ver se minha tia arrancava uma indenização polpuda da CMTC
e tudo que ela conseguiu foi uma perna manca
uma vida manca
e risinhos durante sua passagem
a caminho do coral de uma igreja batista
toda poesia devia ser escrita
nas escadarias de um prédio em chamas
enquanto os bombeiros pulam seu corpo encolhido
tentando proteger um bloco de anotações
a única caneta pra poesia é o dedo
saído do exame de diabetes
eu odeio poesia
eu odeio poetas
porque eles se movem em câmera lenta
como em propagandas do Suflair
e tiveram bronquite na infância
e tartarugas de estimação
só acredito na poesia genuinamente triste
uma menina que sai pra sua aula de dança
e nunca mais volta
alguém que desistiu de acender um cigarro
porque tava ventando muito
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
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