Adoro as poesias de Olga Orozco. Não sei bem ainda porquê. Racionalmente pensando é o oposto do que aprecio na poesia, mas me pega... são um monte de abstrações cruzadas e, de início, você não entende nada, mas algo te sussurra... e você segue lendo, e lê de novo e as abstrações vão se tornando mais concretas, é quando vc pára e diz: "putz, é isso mesmo que sinto!". Bom, pode ser uma viagem só minha :) Segue mais uma tra(b)dução. Observação: ela usa umas palavrinhas meio chatas várias vezes... tento na minha tra(b)dução deixar o mais coloquial possível, mas nem sempre dá.
O adeus
A sentença era como esses decalques em que o relevo do amor
deixa um vazio semelhante a suas culpas.
Me expulsaram ao mundo em meu caixão de gelo.
Uma terra sem nome todavia correu sobre este rosto
com que habito nessa desconhecida:
era a terra do castigo.
Era a hora em que começo a despertar entre os mortos
com a evidência de um anel rompido,
um vestido de múmia desprendido das vendas do céu
e um espelho de sal onde pode se ler meu destino.
O porvenir não é nada mais que olhar pra trás.
Debaixo dessas nuvens desgarradas
há uma casa em chamas
onde os amantes transmutavam em ouro de eternidade o brilho de um dia,
ou tomavam as aparências de ladrões de pássaros
aprisionando entre os fios do ócio as metamorfoses de suas próprias imagens.
Há uma luz dourada que fere até as lágrimas;
há um leito também
com uma barca invadida pela folhagem do desejo
- umas folhas carnosas que exalam o perfume das mais longas viagens-.
E havia sempre e nunca
como agora virados de repente ao contrário.
Coração repudiado,
animal paralisado em um dos costados de teu sangue,
ignoravas então que tinha a forma de um retábulo da criação feito em pedaços,
que alguma vez a noite do adeus te nomearia em voz bem baixa
como nomeia a solidão a suas testemunhas,
ou como chamam aqueles que se vão aos que nunca voltam.
Agora, de costas contra o muro que tem a custódia de todo nascimento,
só te restam as aparições,
o fantasma de um tempo que gritará contigo no tanque morto de algum sonho,
quando ele dorme, tão longe em seu adeus.
Uma sobrecarga de plumas para uma lei de fogo.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
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