quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Gullar, agora em nova versão

Já fiz alguns comentários elogiando o antigo Gullar e criticando o "novo", que podem ser vistos aqui nestes posts:

Ferreira Gullar, antes de virar suco II (não achei o primeiro post desta série, mas está no blog em algum lugar!)
Ferreira Gullar, antes de virar suco III
Ferreira Gullar, antes de virar suco IV
Volver à esquerda, Gullar!

Hoje, li uma matéria no Estadão (do dia 18/01/09) sobre o novo livro de poesia que Gullar está preparando para lançar: "Em Alguma Parte Alguma". Triste ir confirmando que Gullar realmente virou suco e agora se econtra em nova versão, muito mais gostoso, muito sem gosto. Apesar do título do novo livro ter uma jogadinha legal, ele aponta pra lugar nenhum realmente. Pelo menos Gullar é sincero. Sua poesia se afasta cada vez mais do contexto social (da realidade mesma) e vai se fechando em sua vida, seu apartamento, seu umbigo. Não que ele nao tenha direito de fazer isso... mas ele mesmo disse certa vez que queria que sua poesia fosse porta voz da realidade maior... vejam, não estou querendo que ele faça poesia panfletária e nem, necessariamente, política. Nas boas épocas de Gullar, ele fazia poesias sobre coisas banais, sobre um poster de uma modelo numa borracharia... mas mesmo esse poema nascia do convívio com espaços sociais, vc sentia que o poeta circulava pelo mundo e o redescobria. Agora, a sensação que dá das últimas coisas que escreve é que ele parece não circular ou, então, circula por espaços que não lhe dizem mais nada e por isso a experiência vital e fascinante que pode ainda ter está dentro do umbigo dele mesmo. Isso não quer dizer que a poesia dele não tenha força... mas pra mim perde sentido... já que poesia não é só forma e conteúdo, mas postura diante do mundo. Gullar foi levado pela conjuntura de enfraquecimento das lutas populares, foi levado por FHC, foi levado... não ouve mais a voz que precisa vir à tona... Abaixo, coloco 3 poesias do novo livro - ainda não publicado - do Gullar, que o Estadão revelou. Deixo ao leitor a experiência de sentir a diferença desses poemas para um, das antigas, que também posto abaixo. Aqui vai, também, um trechinho da entrevista do Estadão que me chamou a atenção. O repórter pergunta: "Você acredita que a pessoa se torna mais lúcida, mais criativa, mais capaz, se tem uma obsessão?". O repórter perguntava sobre obsessão porque a forma como Gullar produz poesia é obsessiva pela própria descrição que dá ao longo da entrevista: é tomado pela poesia, fica num outro estado etc. Mas Gullar leva a pergunta pra outro terreno e dá uma resposta afetada, de quem parece ainda carregar alguma culpa (será que essa é a culpa que o poema 2 abaixo descreve?): "Não sei dizer qual é o sentido de obsessão. Ter um propósito determinado não torna ninguém mais lúcido. Estar comprometido com uma idéia política, por exemplo, e utilizar a literatura como instrumento para modificar a sociedade pode não ser uma atitude de alguém lúcido. A pior coisa é ser dono da verdade. Não questionar os próprios valores e certezas é perigoso. (...)". Gullar vive um momento de muitas incertezas, esqueceu que viver sob o capitalismo no século XXI é perigoso pra grande maioria... Mas com certeza, deixou, há muito, de ser perigoso pra Gullar... triste fim.

1.
O meu gato
na cadeira
se coça
corto papéis na sala
a manhã clara canta na janela
estou eterno.
(Flagrante)

2.
É alta madraguda. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?
(Insônia)

3.
Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho queimado
metálica

Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
na sala
ou janela

Não cheira
não atrai abelhas
não murchará

apenas fulge
em alguma parte
da vida
(Uma corola)

Poesia das antigas:

Subversiva

A poesia
quando chega

não respeita nada.
Nem pai nem mãe.

Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas

relincha
como puta
nova

em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija

nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça

E promete incendiar o país