terça-feira, 7 de abril de 2009

Roberto Jorge Santoro

Uma tra(b)dução.

AS COISAS CLARAS


minha voz está em seu lugar
o coração sabe algo mais porque me dói

por isso digo:
terrível ofício
é repartir equivocadamente os abraços
e que a alma viva entre cachorros esfomeados

um de meus erros
foi crer que todos éramos irmãos

e agora
não se pode trocar o horizonte pela nostalgia
há que esquecer-se dos velhos sorrisos
e andar com a dor às costas
para que sirva definitivamente

nunca disse
minha lágrima foi grande
sofri
não me quiseram

cada um conhece sua dor
e sabe de que maneira conversar com a desgraça

que venha a vida e me golpeie
de nada vale fechar os olhos

um homem dormindo
é uma dor que descansa

é duro o amor quando se nega
um dia no entanto recosta seus abraços
apoia seu mistério em minha cabeça
e me leva a viver no primeiro piso de um incêndio

não comparo
simplesmente dou meu fruto
e espero

da semente mais humilde
pode brotar o fogo ou a formosura

se estou encurralado entre dois beijos
decido me enroscar ao pé de meu coração
e sonho

sou triste até os sapatos

à hora do chá
minha alegria se senta e chora comigo

mas sustento que um dia
ainda que o amor seja o irmão implacável da chuva
da minha casa a teus olhos
não haverá naufrágios.

(De Las cosas claras, 1974)