sábado, 10 de outubro de 2009

Fragmentos I: o esquecimento

(exercício de escrita semi-automática)
(relendo senti uma mistura estranha de olga orozco com augusto dos anjos)

a sombra escava em meu peito os sons mudos muídos de teus dentes, esses risos que acendem um farol invertido que mostra só o erro, canto negro de sereia. a sombra escava a terra toda necessária pra te cubrir o corpo até os olhos (do olhar primeiro em que te tive desejo e medo). algo te roe nas madrugadas de meus olhos, mastigando lento tuas pálpebras, o desejo de teu pescoço e o gosto de tua primeira língua, dissolvendo a tua face dentre tantas, apagando tuas pegadas de meu dorso. essa faca afiada de lua que separa, como carne da gordura, tua pele clara de meu escuro-sedento, a palma toda de teu rosto do rosto todo de minha palma. o escuro negror-dos-fins afunda seus dentes-de-não em tuas entranhas, reentrâncias, dobras, vãos. sinto os séculos que habitam os segundos fervendo o caldo grosso de nossos líquidos, derretendo os suores, salivas, os cabelos, cílios, fílios... ainda sinto teus lábios apodrecidos apodrecendo ainda mais quando os imagino, e esse azedo das palavras tão-doces-e-não-ditas fermentando no estômago das nossas bocas (vazias)... essa grossa fervedura de nuncas-jamais donde evapora-se os silêncios-dos-corpos-respirados-juntos...

sei que em breve não haverá mais sangue escorrendo pelas paredes. tuas risadas como pombas negras ecoando assustadas dentro da casa secarão como cascas de mofo nas paredes brancas. e teu gozo, jorro de eu-menino-sustos-e-lírios, vai se putrefazendo junto ao caldo gorduroso de tantos outros ruídos e prazeres pueris, vis, mesquinhos. um corpo dentro do outro se desfazendo. a digestão longa de tuas mãos. esse bolo de desejo-morto descendo os intestinos, a decomposição maciça de tudo que foi encontro. a garganta da noite te regurgita ainda menina, ainda volta à boca mindinhos, a cor de tua voz, um jeito só teu de chorar por dentro, uma noite inteira de mães mortas velando a si mesmas, e mastiga, mastiga o que era carne, mastiga, mastiga o que era sonho, mastiga, te mastiga a boca, o amargo, o nó, uma a uma tuas letras, mastiga o cavalo-negro tão-pouco que fui pra tua vertigem tão-lua, o púrpura, tuas unhas, tua dor inatingível de carinho, tua vulva... mordiduras! mastigo até encontrar a textura que a morte de um cometa deixa, rastro escuro na língua. te desamo até os gânglios, até os ossos. desbrilho teus olhos no descer necessário dos esôfagos. te obrigo a ser em mim o oco. você toda evolando-se nos gases próprios do apodrecimento donde teu rosto cada vez menos brilha, em breu, fátuo-fogo. aguardo na dor lenta dos peristálticos movimentos a deglutição perfeita de teu miolo ainda vivo de ausência.