domingo, 18 de janeiro de 2009

Miguel Marmól - histórias das revoluções


Abaixo segue um relato que Miguel Marmól, lutador revolucionário na Nicarágua, deu ao poeta guerrilheiro Roque Dalton (sobre este volto a falar em outros posts). Roque Dalton escreveu um livro sobre Miguel, chamado "Miguel Marmól". Mas eu achei o relato abaixo no ótimo livrinho: "El Salvador - um fuzil para Ana Guadalupe", onde Helio Golsztejn e Omar L. Barros fazem uma análise da luta revolucionária em El Salvador. Abaixo segue a impressionante história de como Marmól sobreviveu ao paredão. (O mais impressionantes é que o próprio Roque Dalton, que coletou esse relato de Marmól na Tchecoslováquia, sobreviveu a dois fuzilamentos... papo para outros posts...)

"(...) Mas ninguém dormia na cela. Às dez da noite, ressoou um grito em meio ao silêncio: 'Miguel Marmól, ao recinto!' O companheiro Cafezinho me disse, em segredo, que não respondesse, que certamente estavam escolhendo as pessoas para fuzilar. Pobrezinho do Cafezinho, esta foi a noite em que morreu fuzilado também, mas em outro paredão. Veio um segundo grito, já muito perto da cela, me chamando. Eu respondi, irritado: 'Aqui estou, caralho!'
Assim que os policiais abriram a porta, reparti minha comida entre os que ficaram, o rancho de tortilhas, feijão e uns ovos que alguns familiares de alguns réus passaram desde a rua. Arrancaram-me da cela aos empurrões, puxando meus cabelos e me ferindo com as pistolas. Não me deixaram nem vestir a camisa, amarraram-na a um braço, depois de terem atado minhas mãos nas costas. Contudo, lhes disse, para não perder a moral: 'Vocês sabem nem amarrar como a gente, chambones'.
Aí me golpearam no estômago, fiquei sem ar, e me fizeram ver luzinhas. Baixaram-me ao pátio, de tal modo que pensei que iam me matar ali mesmo. Mas não, tinham me levado ali para me reunir com outros réus. Em poucos minutos, éramos 18 prisioneiros, quase todos camaradas do partido, ou sindicalistas da regional. Entre eles, recordo de Manuel Bonilla, líder do sindicato dos trabalhadores de hotéis, um jovem de 25 anos, membro da Juventude Comunista; de Rafael Bondanza, um grande camarada do partido, maquinista de trem em Sonsonate; do camarada Marcelino Hernandez, panificador; de Santiago Granillo, oriundo de Ilopango, e especialmente odiado pelas autoridades porque havia se dado ao luxo de dar uma dura, um por um, em todos os aviadores militares do aeroporto (esta noite, por certo, por estar tão mal recomendado, cortaram os braços de seu cadáver); do meu camarada dimas, da Juventude Comunista; de Serafín Martinez, líder sindical e trabalhador da Singer, que não era membro do partido, com certeza; do russo e seu ajudante.
Este russo era um estrangeio que se dedicava a vender imagens de santos nas zonas rurais, e as pessoas diziam que era um comunista soviético da Internacional, mas, em verdade, nunca teve contato com o partido, que eu saiba. E se não era comunista, morreu como se fosse, com uma serenidade tremenda. Seu ajudante, um jovem, não queria sair da cela onde se encontrava, mas o tiraram a coronhaços, e assim rebentaram sua cabeça.
Quando estavam nos enfileirando no pátio, chegaram uns oficiais do Exército e perguntaram por mim. Discutiram superficialidades comigo, sobre as razões da insurreição. Bondanza e Bonilla dirigiram-se a eles e aos policiais, em tom de arenga, dizendo que chegaria o dia em que se convenceriam da bondade dos comunistas e do crime que o governo estava cometendo contra o povo. Os oficiais responderam, simplesmente, que já tinham acabado com a insurreição comunista, e que em todo o país havia milhares e milhares de mortos. Não se mostraram agressivos, nem nos ofenderam.
Uns policiais grandinhos terminaram de me amarrar fortemente, com umas cordas grossas, tão apertadas que eu comecei a sentir que o sangue ia me sair pela boca. O corpo começou a tremer, então eles riram e disseram que eu estava com medo. Reclamei, ofendido, e disse que era só pela pressão do sangue, e que, em realidade, tinha menos medo que eles, porque já teriam se cagado três vezes no meu lugar. Um caminhão grande entrou no pátio e os policiais começaram a obrigar os rúes a subir na base de coronhadas.
Eu não conseguia subir proque a correceria do caminhão era muito alta, então dois policiais me levantaram e me jogaram como se eu fosse uma maleta. Caí todo dobrado junto ao russo e pedi que me deixasse encostar a cabeça em suas pernas. Ele falava com sotaque, mas num espanhol correto, e me respondeu com toda a cordialidade: 'Deite-se, camarada., não tenha pena'. Assim, saímos da polícia velozmente, e tomamos o rumo dos arredores da cidade, precisamente em direção a minha zona natal, coisa que se tornou evidente quando passamos em frente a Casamata, onde um grupo de soldados fez uma inspeção.
Responsáveis pela nossa custódia iam 17 guardas nacionais armados com fuzis Mauser, o chefe da comissão, que se chamava Capitão Alvarenga, que ia na cabina com uma metralhadora de mão alemã, das chamadas Solotur, e o motorista, que também levava uma Solotur. O capitão Alvarenga morreu algumas semanas depois, de febres intestinais, certamente impressionado por tantos e tantos crimes como aqueles. Virou merda o homem.
Ao passar por Soyapango, surgiu um pelotão de guardas nacionais que tinham armado uma emboscada, e pediram que fossemos entregues a eles, para que nos fuzilassem ali mesmo. Disseram que queriam 'beber o nosso sangue'. O capitão Alvarenga se negou, dizendo que a missão era dele, e que ele a iria cumprir. Então foi que soubemos, de uma vez por todas, de nosso destino. Os guardas, finalmente, nos deixaram passar e disseram aos policiais que poderiam trabalhar com tranquilidade, já que esta zona estava controlada por eles e por três ou quatro patrulhas militares em ronda constante. Eu pensei que, apesar de tudo, estava com sorte, porque morreria perto do lugar onde nasci, onde está enterrado meu umbigo.
Como o grupo ficou inquieto ao saber que não tínhamos salvação, os guardas começaram a dar coronhaçoes e a nos insultar. Para que toda aquela crueldade, se estávamos amarrados como sacos de açucar? Acabaram com os dentes de Serafin G. Martinez com o cano de um fuzil. No fim, paramos em um lugar bem escuro, na jurisdição de Soyapango. Havia um caminho marginal, de terra, muito empoeirado. Atualmente, ali está a estrada que leva ao aeroporto, ou ao boulevard do Exército, na parte que está em frente ao hotel royal, um pouco mais adiante da fábrica de sapatos Adoc.
A luz brilhava no céu, mas as árvores faziam com que o lugar permanecesse oculto na escuridão. Eu caí ao solo, e um policial que veio me ajudar me tirou o chapéu com um tapa. Mas eu o insultei com firmeza, e ele se retirou, e não seguiu mais me fodendo. Quando me incorporei ao grupo, tiraram Bonilla e Bondanza e os puseram contra o paredão.
Serafin Martinez, com a boca cheia de sange e pedaços de dentes, pediu ao capitão Alvarenga que não matasse a Navas, que tinha cinco filhos. Era uma grande alma, o Serafin. Mas eu, que sempre fui um bruto e endiabrado, lhe disse em voz alta: 'Não peça nada a estes filhos da puta, que vieram aqui para nos matar'. Os faróis do caminhão iluminavam a cena.
Quinze policiais formaram como pelotão de fuzilamento, enquanto os outros dois, o motorista e o chefe, apontavam para nós. O chefe deu a ordem de 'preparem, apontem, fogo' quase que de uma só vez. Eu estava nervoso. Mas a tropa também estava, e com a primeira descarga só feriram levemente nossos companheiros. Com a segunda descarga, feriram mais, mas os companheiros não caíram, aguentaram firme, de pé, ainda que na cara a agente visse a morte. Às vezes, sonho com seus gestos. A terceira foi certeira, e os dois desmancharam.
O capitão alvarenga pergunto: 'Vamos ver, quem quer morrer agora?' 'Eu', gritei e dei um passo em frente. O pelotão de fuzilamento estava de um lado do caminho, e o paredão estava no outro. Os policiais suavam, apesar do frio de verão. Todo o corpo me picava. Comecei a atravessar o caminho, quando ouvi uma voz serena: 'Ao lado do camarada Marmól, morrerrei eu.'. Era o russo. Como pudemos, estreitamos as mãos, dando-nos as costas, e nos pusemos diante do paredão com uma atitude altiva.
O chefe deu a voz de comando e veio a primeira descarga. Não nos tocaram, e eu pensei que isso era só para foder, para nos prolongar o martírio. 'Nem aprenderam a atirar, seus cornos', disse com calma. Contudo, os policiais atiraram mais duas descargas que só nos roçaram, e o capitão alvarenga começou a reclamar deles. Na quarta descarga me feriram na altura do peito, mas felizmente não da frente para trás, mas sim de lado, pela postura que adotei ao soar a voz de 'fogo!'. Os tiros me atravessaram o mamilo e o braço esquerdo. Para mim, o ferimento foi saboroso, pois aos sair sangeu aos borbotões, a pressão que as cordas me faziam no braço aliviou.
Eu não lembre de invocar os santos dos céus, nem de nada. Recordei minha mãe. Mas, mais que tudo, não sei se porque eu sentia que ia escapar daquele rolo, que não ia morrer ali. De toda maneira, caí pela força dos impactos. O russo não caiu, ainda que estivesse ferido no peito e no ombro. Quando uns politicias do pelotão chegaram para me ajudar a levantar, eu já estava outra vez em pé.
'Puta', falei, 'assim não vamos terminar nunca.'. Não sei de onde vinha aquela serenidade, aquele sentimento de invulnerabilidade. Aí veio outra descarga. E aí me acertaram bem. Senti vários golpes no corpo e na cabeça, como um choque elétrico. Depois vi uma luz intensa e perdi os sentidos. Ao despertar, estava de bruços, perdendo muito sangue pela cabeça. Meu pensamento estava claro. O corpo do russo estava sobre o meu, pingava sangue quente. Fechei os olhos, e fiz o posível para respirar sem ruído, embora me saísse sangue pelo nariz.
Ouvi que o caminhão esquentava o motor, mas o pior veio quando ouvi o capitão alvarenga dizer que dessem o tiro de graça em qualquer corpo que mostrasse sinal de vida. A Bonilla e a Bondanza os encontraram ainda vivos. Ouvi a voz de Bonilla, que dizia: 'Matem-nos de uma vez, seus filhos da puta, com um monte de tiros!' Bonilla gritou: 'Viva a Internacional Comunista, viva o Partido Comunista Salvadorenho, viva a União Soviética, viva o camarada Stalin, morra o General Martinez!' E Bondanza respondia. Os policiais os insultaram e dispararam repetidas vezes.
Depois chegaram até onde eu estava estendido. Levantaram o corpo do russo, que não deu sinal de vida. Um policial ia atirar em mim, ouvi como o ferrolho do fuzil cortou o cartucho, mas outro falou: 'Para que gastar pólvora? Está com os miolos de fora. O que podemos fazer, é ver se tem dinheiro.' Ao russo, depois me dei conta, um balaço na testa havia lhe arrebentado a cabeça, e parecia que eram os meus miolos que tinham saído pelos meus ferimentos. Rasgaram a minha calça procurando dinheiro. Eu só tinha oitenta centravos, que era o que tinha me sobrado depois que mandei o traidor Escobar comprar bebida.
O capitao alvarenga ordenou que cortassem os nós das cordas de todos os cadáveres para que os coveiros pudessem os arrastar melhor até a fossa no dia seguinte. Então foi que esquartejaram todo o cadáver de Granillo. Feriram-me seriamente nos dedos e no braço que, de todo o modo, eu já não sentia mais pelos ferimentos de fuzilaria. Então foram embora, enfim.
Quando ouvi o caminhão bem longe, me levantei com dificuldade e fui ver se havia algum outro camarada vivo como eu. Todos estavam bem mortos. Levei o chapéu café, novinho, de Serafin, porque nunca me acostumei a andar sem chapéu."