
Essa é tua pena. / Tem a forma de um cristal de neve que não poderia existir se não existisse / e o perfume do vento que acariciou a plumagem dos amanheceres que não voltam. / A coloca a altura de teus olhos / e veja como irradia com um fulgor azul do fundo de lendas, / ou rubro, como vitral de insônia ensanguentado pelo adeus dos amantes, / ou dourado, semelhante a uma letárgica beberagem que sorveram os anjos. / Se observas a translucidez verás passar o mundo rodando em uma lágrima. / Ao respirar exala a preciosa nostalgia que te envolve, / um bafo entretecido de perdão e lamentos que te converte em rainha do reverso do céu. / Quando a sopra cresce como se devorasse a íntima substância de uma chama / e se retrae como certas flores se a roça qualquer sombra estrangeira. / Não a deixes cair nem a submeta a fome e ao veneno; / só conseguirias a multiplicação, uma terra devastada, o bastardo mato ao invés do esquecimento. / Porque tua pena é única, indelével e tinge de impossível quanto vê. / Não achará outra igual, ainda que te internes sob o sol cruel entre colunas quebradas, / ainda que te assuma o mármore às portas de um novo paraíso prometido. / Não permitas então que na solidão a dissolva o costume, não a gaste com nada. / Aperta-lhe contra teu coração como a uma relíquia salvada de um naufrágio: / sepulta-lhe em teu peito até o final, até a empunhadura.