domingo, 4 de maio de 2008

Essa é tua pena

Venho conhecendo melhor esta poetisa argentina, Olga Orozco. Trabduzi seu lindo "Para se fazer um talismã". Agora trabduzo "Essa é tua pena". Para quem quiser ler mais de Olga, vá aqui. Gosto de seu estilo que muitos dizem surreal. Não acredito que seja surreal, mas desenvolvo melhor isso outra hora...















Essa é tua pena. / Tem a forma de um cristal de neve que não poderia existir se não existisse / e o perfume do vento que acariciou a plumagem dos amanheceres que não voltam. / A coloca a altura de teus olhos / e veja como irradia com um fulgor azul do fundo de lendas, / ou rubro, como vitral de insônia ensanguentado pelo adeus dos amantes, / ou dourado, semelhante a uma letárgica beberagem que sorveram os anjos. / Se observas a translucidez verás passar o mundo rodando em uma lágrima. / Ao respirar exala a preciosa nostalgia que te envolve, / um bafo entretecido de perdão e lamentos que te converte em rainha do reverso do céu. / Quando a sopra cresce como se devorasse a íntima substância de uma chama / e se retrae como certas flores se a roça qualquer sombra estrangeira. / Não a deixes cair nem a submeta a fome e ao veneno; / só conseguirias a multiplicação, uma terra devastada, o bastardo mato ao invés do esquecimento. / Porque tua pena é única, indelével e tinge de impossível quanto vê. / Não achará outra igual, ainda que te internes sob o sol cruel entre colunas quebradas, / ainda que te assuma o mármore às portas de um novo paraíso prometido. / Não permitas então que na solidão a dissolva o costume, não a gaste com nada. / Aperta-lhe contra teu coração como a uma relíquia salvada de um naufrágio: / sepulta-lhe em teu peito até o final, até a empunhadura.