quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Advirto, não explico

Advertência, Não Explicação (Thiago de Mello)

É sobre o sapo seco e a tua vida.
Para começo, nada e nem de leve
tem a ver, apesar de ser burguês
com o perplexo caracol de Lorca
que, pacífico, vai pela vereda
e aturdido se esconde das estrelas.

O sapo (seco) não se aturde, é manso,
mas não se esconde nunca porque vive
no teu olhar e dentro do teu peito.
É preciso advertir, enquanto é tempo.
O sapo está na rua, como o rato
que sai pro claro quando a peste vem.
Está na tua mão, quando se fecha,
quando se abre também, gorda e vazia.
Mas sobretudo está na decisão
que, de medo, tomaste de encolher
teu sonho, teu poder, tua alegria.

O sapo te encolheu: foste perdendo
o sentimento largo de ser livre,
o gosto cristalino de escolher
um caminho e ganhá-lo, trabalhando,
como quem ganha a boca preferida.
Até que um dia tu encolheste o braço,
depois a mão, a tua mão tão linda,
lúcida mão que outrora transportava
mais do que o brilho, o gosto da alvorada.

Foi quando então guardaste nos desvãos
das entranhas, no fundo do baú,
o que era flor e fruto, aço e canção,
foste deixando que ferrugens, traças,
e sobretudo mofos perfumados
fossem comendo com delicadeza,
mas ferozmente, o que lá nas funduras
era pássaro e festa em tua vida.
Um dia (estou te vendo) precisaste
daquela prenda rara e necessária
ao tráfico da vida: já a encontraste
corroída de líquens e cupins,
que o sapo, com sua baba, os engordava.

- Advirto, não explico. Reconheço:
o sapo seco tem suas bonitezas
o seu riso melífluo ofende e encanta,
gera miçangas, peida beija-flores,
acrílicos despeja quando salta
e com decotes expõe seu fogo-fátuo.
Mas como queima quando, num descuido,
te descobres perdido e solitário
no espelho inesperado refletido.

O caracol pacífico da senda
medroso caminhava. O sapo seco
cresce arrogante e público em teu peito
e faz da tua vida esse arremedo,
que não chega sequer a ser traição.