segunda-feira, 14 de abril de 2008

Pra não dizer que não falei de Brecht

Estou relendo o poemário do Brecht. Ele tem uma secura e uma agudeza racional impressionante. Assim que ler tudo, posto algum comentário mais elaborado. Agora, coloco um poema de amor - que em geral são desconhecidos do público militante de Brecht. Pra quem se interessar aqui tem um texto do Leandro Konder dando uma panorâmica na produção poética do Bertolt.


Gosto muito (não sei explicar porque) do olhar do Brecht na foto abaixo...










Recordação de Marie A.

Naquele dia, num mês azul de setembro
Em silêncio, à sombra da ameixeira
Eu a tomei nos braços, amor pálido e
Quieto, como um sonho formoso.
E acima de nós, no belo céu do verão
Havia uma nuvem, que olhei longamente
Era bem alva, estava bem no alto
Ao olhar novamente, desapareceu.

Desde então muitas luas passaram
Mostrando no céu seu alvor
As ameixeiras foram talvez cortadas
E se me perguntas para onde foi o amor
Respondo: Não consigo lembrar.
Mas sim, sei o que queres dizer
Suas feições, porém, para sempre se foram
Sei apenas que naquele dia a beijei.

E mesmo o beijo, já o teria esquecido
Não fosse aquela nuvem no céu
Dela sei e sempre saberei:
Era bem alva, estava bem no alto.
As ameixeiras talvez ainda cresçam
E ela agora deve ter muitos filhos
Mas aquela nuvem cresceu alguns minutos
Ao olhar novamente, desapareceu.