terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Detrás daquela porta

Trabdução de Orozco, novamente, me ajudando a navegar o noturno.

Detrás daquela porta (Olga Orozco)

Em algum lugar do grande muro inconcluso está a porta,
aquela que não abristes
e que joga sua sombra de guardiã implacável ao revés de todo teu destino.
É tão só uma porta fechada em nome do azar,
mas tem a cor da inclemência
e semelha uma lápide donde se inscreve a cada passo o impossível.
Acaso agora ranja com uma melodia incomparável contra o ouvido contra o ouvido de teu ontem,
acaso resplandeça como um ídolo de ouro polido pelas cinzas do adeus,
acaso cada noite esteja a ponto de abrir-se na parede final do mesmo sonho
e meça seu poder contra tuas ligaduras como um amaldiçoado Ulisses:
É tão só um engano,
uma fabulação do vento entre os interstícios de uma história baldia,
refracções falaciosas que surgem do olvido quando o roça a nostalgia.
Essa porta não se abre para nenhum retorno;
não guarda nenhum molde intacto debaixo do pálido raio da ausência.
Não regresse então como quem ao final de uma viagem errônea
- cada etapa um espelho equivocado que te subtraiu o mundo -
descobrisse o lugar onde perdeu a chave e trocou por um nome confuso a senha.
Por acaso cada passo que destes não mudou, como em um xadrez,
a relação secreta das peças que traçaram o mapa de toda a partida?
Não te acerques então com tua oferenda de terras arrasadas,
com teu cofre de brasas convertidas em pedras de expiação;
não transforme teus outros precários paraísos em marasmos e exílios,
porque também, também serão um dia o muro e a saudade.
Essa porta é sentença de chumbo; não é pergunta.
Se consegues passar,
encontrarás detrás, uma trásoutra, as portas que elegestes.