terça-feira, 22 de setembro de 2009

Com esta boca, neste mundo...

(não consigo parar de ler e tra(b)duzir Olga Orozco!)

Não te pronunciarei jamais, verbo sagrado,
ainda que me deixe as gengivas de cor azul,
ainda que ponha debaixo de minha língua uma pepita de ouro,
ainda que derrame sobre meu coração uma caldeira de estrelas
e passe pela minha frente a corrente secreta dos grandes rios.

Talvez tenhas fugido para os cantos da noite da alma,
onde não é possível chegar desde nenhuma lâmpada,
e não há sombra que guie meu vôo pelo umbral,
nem memõria que venha de outro céu para encarnar esta dura neve
onde só se inscreve o roçar da rama e a lamúria do vento.

E nem um só tremor que faça sobressaltar as mudas pedras.
Temos falado demasiado do silêncio,
o temos condecorado assim como a um vigia no arco final,
como se nele estivesse o esplendor depois da queda,
o triunfo do vocábulo com a língua cortada.

Ah, não se trata de canção, tampouco de soluço!
Já disse o amado e o perdido,
travei com cada sílaba os bens que mais temi perder.
Ao largo do corredor sonha, ressoa a tenaz melodia,
retumbam, se propagam como o trono
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à obscuridade.
Nosso grande combate foi tambem um combate a morte com a morte, poesia.
Ganhamos. Perdemos, porque como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo com esta boca apenas
neste mundo com esta boca
apenas?

nos banheiros da vida

Verso muito bom que vi num banheiro hoje:

Todo mundo quer ir pro céu,
mas ninguém quer morrer!