Meio poeta (Luís Fernando Veríssimo)
No dia em que Mônica e Otávio voltaram da lua-de-mel, Mônica chegou na casa dos pais e se trancou no quarto com a mãe. Precisava contar uma coisa e não queria que o pai ouvisse. - O Otávio é poeta, mamãe. A mãe levou as mãos à boca. - Minha Virgem Santíssima! Depois perguntou: - Como você descobriu? - Na primeira noite. A lua estava cheia. Ele fez umas frases sobre a luz da lua no meu corpo. - Mas você tem certeza que era poesia? Rimava? - Não rimava, mas era poesia. Ele mesmo disse, mamãe! Eu perguntei “O que é isso?” e ele respondeu “Eu sou meio poeta”. - Bem que seu pai desconfiou... - Você acha que devemos contar ao papai? - É claro. E agora. O pai disse “Eu sabia” e determinou que chamassem Otávio para se explicar. Mônica disse que Otávio ficara de buscá-la ali depois do trabalho. Os três esperaram a chegada de Otávio. A mãe, temendo algum excesso do pai, tentou amenizar a situação: - Ele disse que é só “meio” poeta... O pai não disse nada. Quando soou a campainha da porta, mandou que a filha fosse para o quarto. Otávio cumprimentou os sogros efusivamente - era a primeira vez que os via depois da festa do casamento - , mas logo percebeu a frieza deles. - O que foi? - perguntou. - Você não nos contou que era poeta - disse o pai. - Mas eu não... - Não adianta negar. A Mônica nos contou. Você pensou que ela não nos contaria? - Mas foi só um... - Sei. Um poeminha. É assim que começa. Um versinho hoje, um versinho amanhã. Não demora você estará fazendo poemas épicos, odes a qualquer coisa, diariamente. Já vi acontecer. Acabará abandonando o emprego, roubando a mesada da minha filha, para sustentar o hábito. - Mas eu... - Você vai dizer que pode parar quando quiser. É o que todos dizem. - Meu filho - interveio a mãe, aflita -, você não se dá conta do mal que a poesia pode fazer? Há quanto tempo você... - Não interessa - interrompeu o pai - O que ele fez antes não nos interessa. Mas agora está casado. Tem responsabilidades, tem que trabalhar para manter a família. Está num ramo competitivo, não pode facilitar. Eu sei, eu sei. A poesia é tentadora. Eu mesmo, na mocidade, fiz meus sonetos... - Eurico! - Nunca lhe contei isto, Marta, mas fiz. Felizmente tive um pai que me orientou e parei a tempo. A Mônica foi criada sem qualquer poesia. Qualquer sugestão de métrica, nós reprimíamos. E sempre a alertamos contra os poetas. - Será - sugeriu a mãe - que não existe um programa de reabilitação? Alguém com quem você possa se aconselhar... Mais uma vez o pai a interrompeu. - A decisão tem que ser sua, Otávio. E tem que ser agora. Você compreende que não podemos deixar a Mônica sair desta casa, onde sempre teve toda a segurança, para viver com um poeta. Não nos dias de hoje. Faça a sua escolha. A Mônica, uma família, uma vida normal... ou a poesia. Otávio jurou que abandonaria a poesia para sempre, a Mônica foi chamada, os dois foram para o apartamento novo, Mônica um pouco desconfiada. Otávio ouvindo a advertência, na saída: “Olhe lá, hein?” Hoje, sempre que fala com Mônica pelo telefone, a mãe pergunta: - E o Otávio? - Está bem, mamãe. - Nunca mais... - Nunca. Às vezes, quando a família está toda reunida, Otávio diz umas coisas que provocam troca de olhares entre os outros e a suspeita de uma recaída. Depois a Mônica assegura que aquilo não é poesia, é só o jeito dele. Mas seu Eurico e dona Marta vivem preocupados com a filha. Nas noites de lua cheia, então, dona Marta nem consegue dormir direito.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
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