sábado, 13 de setembro de 2008

Volver à esquerda, Gullar!

Texto de meu ex-professor Sírio sobre o Gullar.

Sírio Possenti (da coluna do Terra Magazine)

Assim que terminei de ler a coluna dominical de Ferreira Gullar na Folha Ilustrada, no último domingo, decidi que meu textinho da semana sairia de lá. Por duas razões: a menção aos afro-brasileiros e um conjunto de perguntas, das quais uma grande parte tem um jeitão de PFL - atualmente DEMOS. Aliás, faz tempo que o poeta vem fazendo declarações que, a pretexto de criticar o governo, têm "repercutido" posições de direita, produzindo enunciados que Bornhausen assinaria.

Essa, aliás, é uma questão discursiva clássica: quando a esquerda critica outras vertentes de esquerda - o que parece ser uma das suas principais funções, esquecendo que o inimigo está na direita - o faz freqüentemente com algum discurso de direita. As direitas brigam menos...

Mais ou menos curiosamente, ou coincidentemente, a coluna de Mônica Bergamo da segunda-feira (28/01/2008) cita a seguinte declaração de Gullar (falando sobre origens e processo criativo, informa ela): "Ladrão nasce ladrão. Maluf, por exemplo, nasceu ladrão. É rico e rouba". Acrescenta a colunista que Adilson Laranjeira, assessor de Paulo Maluf, disse que se trata de uma infâmia e que Gullar vai ser processado.

Aqui, preciso fazer uma digressão. Um programa de TV (Inside the Actor´s Studio, acho) em que se entrevistam artistas do cinema americano termina sempre com as famosas perguntas de Bernard Pivot, um famoso entrevistador francês de personalidades da cultura. Uma das perguntas é qual a profissão que o entrevistado jamais exerceria. Minha resposta seria "a de Adilson Laranjeira", que é ficar de olho na mídia à cata de declarações contra Maluf e escrever a jornais desmentindo e ameaçando com processos. Os jornais, curiosamente, sempre publicam suas cartinhas. Que prestígio!

Voltando à vaca fria: essa declaração de Gullar reforçou minha vontade de escrever sobre seu atual pendor para a direita, e a razão imediata é que acabo de ler o conhecido livrinho de Bobbio (Esquerda e direita, Unesp) para outro trabalho. Segundo esse pensador, uma das diferenças entre esquerda e direita é que aquela prefere explicações de tipo social e esta, de tipo natural. Segundo essa proposta, quem diz "ladrão nasce ladrão", refira-se a um figurão ou a um pé-rapado, está à direita.

A crônica de Gullar no domingo se chamava "Perguntas que não querem calar". Tem um pouco de tudo: por que os advogados de defesa dão os conselhos que dão a seus clientes, por que a justiça não manda o governo pagar quando perde processos, por que o Banco Central permite que os bancos explorem tanto os clientes, mas se destacam perguntas sobre problemas sociais, do tipo "De onde vem essa tese de que a sociedade é culpada, e o bandido, vítima, mesmo se empurra num precipício um ônibus com mais de 20 pessoas dentro?".

Não vi notícia desse fato em lugar nenhum, mas não tenho razão alguma para achar que Gullar a tenha inventado. Mas duvido que alguém tenha dito que o bandido que fez isso é vítima, isto é, duvido de alguma declaração nesses exatos termos e a propósito exatamente desse episódio. É uma construção, uma mistura de pedaços de discursos correntes, em geral de direita... Gullar juntou os cacos.

Claro que não será por ser de direita que a pergunta não faz sentido. Até faz. Mas Gullar poderia também ter perguntado por que há tanto trabalho escravo em fazendas de ruralistas, e não perguntou. Não custava muito, eu acho.

Volte à esquerda, Ferreira Gullar!