quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ferreira Gullar - antes de virar suco IV

Bom, me arrepio e me identifico muito com Gullar... essencialmente com o Gullar anterior a década de 90. O Gullar que vem depois, na minha insignificante opinião, já isolado do movimento real da sociedade brasileiro (da luta social que se trava) acaba produzindo sobre (e sob) seu universo-umbigo... e, pra mim, é quando ele começa a virar suco passando, inclusive, a fazer releituras de sua história, da história atual que apontam para um conservadorismo. É claro, faz-se necessário maior leitura de sua obra e elaboração teórica pra se afirmar isso com mais eticidade crítica. Mas como este blog não se presta a isso, fica aqui a impressão.

Apesar disso, Gullar é certamente o poeta brasileiro que mais me influencia. A poesia tem história e algo novo surge apenas da apropriação do velho. Se estabeleço raízes e conexões com a história da poesia é através da leitura que Gullar faz da sua realidade vivida e da história cultural do Brasil, essencialmente da poesia brasileira. (É impressionante como sua obra teórica é tão desconhecida mesmo daqueles que estudam literatura.) Essencialmente, sua forma dialética de escrever, alternando visões do singular e do geral, emocionais e racionais, saindo do instantâneo para visões temporais mais largas, visando sempre uma certa totalidade (mesmo que superada no momento seguinte por outro verso, outro poema) me toca diretamente. Seu "método poético" me cativa. Sua influência me deu uma caminho claro para trilhar. Claro, há que superá-lo. Mas sinto que ainda estou a compreender toda sua dimensão... começando a buscar suas raízes também. (Recentemente descobri que Gullar teve uma breve amizade com Oswald que o influenciou bastante... toca reler Oswald, agora com olhos de Gullar). Ainda é tempo de conhecê-lo.

Segue, abaixo, um trecho de uma entrevista compilada no seu livrinho (fantástico!) "Indagações de Hoje". O trecho é longo mas vale a leitura.


"E é nessa relação com o processo social, com o problema da fome, da reforma agrária, do imperialismo, do favelado, que minha linguagem se foi reconstituindo. Já não cabia fazer aquelas perguntas: onde está a essência da linguagem? Onde está a essência do ser? Já não estava preocupado com isso. Já tinha na minha cabeça aquela frase de Marx: "A filosofia perdeu muito tempo em querer explicar o mundo, é necessário agora mudá-lo". Quando li essa frase, disse: "É isso mesmo". Fui logo concordando. Antes concordava com todos os filósofos, porque, também, era impossível não concordar, eles são brilhantes! Mas, sempre achava que tinha alguma coisa ali que não batia, e quando li Marx, batia tudo, era muito real, muito ligado à vida concreta, às coisas que minha própria experiência me dizia serem verdadeiras. Minha poesia se desenvolveu a partir disso, com muitos percalços, muitos erros, muito sofrimento, como tudo o que aconteceu no Brasil. Acredito que ela esteja misturada com tudo isso, que seja produto de tudo isso. Procurei fazer uma poesia que fosse expressão da realidade, da experiência vivida, real, dos meus sofrimentos, minhas loucuras, com a linguagem de todo mundo, porque esse é que é o grande problema. Essa linguagem que é a que se fala na rua, a linguagem de todoas as pessoas. Qualquer poeta pode ter outra visão. Eu tenho esta, não é a única, mas é minha, que é: fico aprendendo muitas coisas, saí do absoluto, de todas as outras coisas que eu pensava, aprendi que o homem é histórico, que a vida é histórica, que o novo nasce do velho, que é impossível tentar mudar o mundo partindo de nada, que é impossível fazer a poesia a não ser partindo da prosa. Aprendi isso, a poesia que me interessa é essa que nasce da vida, é da própria vida que ela nasce, como o amor nasce da rua, na esquina. É uma coisa tão bonita, pode ser tão bonita, mas nasce por acaso, você se encontra num bar, num ônibus, na praia, na vida, e nasce uma coisa, não nasce todo dia. A poesia também não. Assim como essa coisa nasce da vida, a poesia nasce da prosa. A prosa é o cotidiano, é o chão da vida, é onde a gente está dizendo todas as coisas, a gente conversa, bate papo, mente, trai, diz coisa bonita, é terno... Dessa palavra suja, carregada de experiência, é dela que tem que acender a luz da poesia. É assim que vejo. Uma poesia que é de todos, porque nasce da boca de todos. Procura ser isso... Escrevi um livrinho chamado "Uma luz do chão", não do céu... Não vem de lá, vem daqui, somos nós que nos queimamos e acendemos essa luz possível, na vida."