terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Poesia em tempos de barbárie I


















Reproduzo abaixo um pequeno debate que travei com Marcelo Montenegro em seu blog... reproduzo também o texto que deu origem ao meu comentário e suas réplicas. Me aproximei da poesia de Marcelo porque se destaca dentre a geléia geral dos poetas "moderninhos" (procure neste blogue poesias dele). Marcelo leva a poesia para os recantos mais prosaicos do cotidiano seguindo o caminho de desmistificação da poesia e afundando-a cada vez mais na lama do real (mesmo que um real vinculado a um horizonte específico de seu cotidiano, de seu segmento de classe). O texto do Marcelo que deu início à celeuma me permitiu compreender um pouco melhor o contexto de sua produção, coisas que nem sempre compreendemos apenas ao ler os poemas soltos. A partir desse contexto a iluminação desses pequenos momentos prosaicos parece se configurar, agora, como o horizonte máximo de liberdade possível dentro do labirinto individual em que nos joga o capitalismo. Essa é a liberdade ambicionada, essa ruptura momentânia, epifância, com a opressiva realidade institucionalizada e burocrática. Não tinha essa compreensão antes e, agora que a tenho, não vejo sua poesia como menos bela ou menos tocante... apenas compreendo melhor o olhar que origina o movimento poético e é de parte desse olhar que discordei no debate.


Leiam e comentem... tirem suas próprias conclusões. Achei melhor interromper o debate, lá, porque não parecia que caminharíamos para algo saudável. Confesso que meu primeiro post foi escrito de impulso e, portanto, não evita algumas manifestações desnecessárias que uma segunda leitura evitaria... Mas, Porra! (como ele mesmo diz em sua última resposta) blogue é pra tudo isso, ou vamos escrever só pra nossa patota? Se ninguém cutucar ficamos aí, na autoconstrução.

Texto original:

"Teve uma época que me interessei por política. Ainda sou interessado, de outra forma. Meio que me desconectei dos “factóides”, ler a segunda página dos jornais, acompanhar o dia a dia. Aliás, leio jornal cada vez mais rápido. Em menos de 10 minutos já passei a vista no que me interessa constatando que a maioria das coisas que são ditas – e o modo como estão ditas – não me interessa em absolutamente nada. Não acredito em política partidária. Não acredito em movimentos. Como diz meu amigo Mário Bortolotto, na peça Efeito Urtigão, “quem precisa de movimento é quem tá parado”. A política tradicional com seus governos há tempos transformou-se numa ficção distante de quem está aqui em baixo – só falta o lago de lava com crocodilos e outros monstros aquáticos rodeando o castelo. As mudanças – sejam elas quais forem – são feitas justamente aqui, por pessoas. Invenção de cotidianos anti-burocráticos, de uma vida menos vendida à imagem, trabalhar em algo que te dê possibilidade de criar, algo que você realmente goste e faça como ninguém, varar a noite num bar com pessoas com as quais você se importa, salvando o mundo da chatice nem que apenas por instantes, “discutir Carlos Gardel”, interromper o roteiro que você está fazendo para uma produtora pra bater uma punheta às 3 da tarde, fazer um poema com rima toante, tirar meleca do nariz, uma gordona pulando com gosto seu pulo ridículo na piscina, simplesmente sentar na frente do computador às 10 da manhã de uma segunda-feira e escrever sobre essas coisas, trepar com a mulher que você ama, citar um velho Belchior pra encerrar um papo chato, esforçar-se pra que seus filhos cresçam num ambiente diferente, fora da babaquice generalizada, ouvindo outras músicas, vendo outros filmes, sacando outras linguagens sobretudo pra poderem ouvir, ver e sacar as mesmas músicas e os mesmos filmes de um outro modo, a luta de uma vida inteira, a briga de você com você mesmo, “o amor é mão de obra”, refinamento radical da existência, rir de tudo isso e de si mesmo, “operário do próprio privilégio”, são os atos políticos que verdadeiramente me interessam. Eu diria, portanto, que meu interesse foi ficando cada vez mais exigente, cada vez mais sem saco pra determinados assuntos, mas que não resiste quando lê algo como isto aqui. "

Sequência de comentários e respostas:

EU

"operário do próprio privilégio", putz, um triste post pra mim... não que eu acredite na politica tradicional (nem marx, nem lenin acreditavam nela...) mas "quem precisa de movimento é quem tá parado..." é demais... horrível, horrível... (será que vc realmente não participa de um movimento? Um movimento que pensa justamente desse jeito, que as mudanças vem dessas pequenas açoes individuais de ruptura... cada um na sua, mas com criatividade... desculpe a ironia, marcelo... eu entendo essa briga de voce com voce mesmo: escrever eh lidar diretamente com isso... mas tambem com outras coisas que inclusive sustentam essa tua possibilidade de escrever sobre a briga de vc consigo mesmo... Quantos tem a possibilidade de serem "o operario do proprio privilegio"? Abraços, jeff

MARCELO
Eu penso, acredito e sou o que escrevi aí. Você pense, acredite e faça o que quiser. Como você mesmo disse, cada um na sua velho. Eu não tento persuadir ninguém do que penso e acho um puta saco quando tentam fazer isso. E se você interpretou esse “próprio” do "privilégio" como "egoísmo", “conforto pequeno-burguês” ou algo do tipo (e pelo jeito sim, a contar por essa frase feita usada no final), me desculpe, você não entendeu nada.

EU
Marcelo, eu acho que a persuasão está tão presente no texto quanto mais parece não estar. Mas isso é outro debate. Apenas fiz um comentário, assim como em outras vezes elogiei coisas tuas. Não quero te convencer, apenas me manifestar. Por fim, não interpretei "operário do próprio privilégio" como egoísmo, não. Entendo sua luta individual (também tenho a minha). Me assustei por ela aparecer como antagônica a luta de outros, coletiva. E a pergunta final que fiz, queiramos ou não, permanece aí, ecoando nesse mundo miserável que, apesar da criatividade e rupturas individuais, que apesar da arte (que tanto curto), ainda pesa sobre os ombros da maioria como um enorme clichê. Sao eles - essa maioria - e nao eu ou vc, que, como operarios dos privilegios alheios, não têm outra alternativa - quando ameaçados - senão se unirem e se porem em movimento, para lutar. Penso isso... Abraços cordiais, jeff

MARCELO
Porra Jefferson... vamos lá então. Não foi só um comentário. Além de misturar totalmente as bolas, me soou como uma tentativa professoral de moralismo social, mas isso é “outro” debate também. Repito: o privilégio que falo é a possibilidade de criar uma vida mais sincera, sem engolição de sapo, sem ter que ser uma pessoa no trabalho e outra fora dele etc etc. Uma alternativa ao lugar comum, "só" isso. Não tem nada de antagônico a porra nenhuma. É um elogio a pessoas anti-institucionais, que "desistiram de botar suas fichas na máquina", que por mais que concordem com as causas de vários movimentos, não se enquadram, não tem saco pra sistemas e discursos fechados, entende? Acho que esse discursozinho bonzinho e politicamente correto "tipo-ong" falha feio na linguagem, espanta pelo excesso de boa intenção. Agora, algo que surja diretamente de qualquer parte dessa maioria, a partir de uma tomada de consciência deles próprios com relação ao absurdo em que vivem, é uma outra história e teria toda minha simpatia.

Observação: Em sua última réplica, Marcelo parecer apontar que meu discurso é o do tipo "ong", apesar de não entender de onde tirou isso pois falo de luta e não de ajuda/auxílio. Pelo contrário, me soa que sua tentativa de explicar o que seja "operário do próprio privilégio", na última réplica, recai num discurso mais próximo do terceiro setor, ou melhor, da cidadania: trabalhando muito e de forma honesta se chega lá, dá pra ter uma vida legal e romper a burocracia do dia. Até acho que alguns conseguem ter essa vida mesmo... e que bom que alguns conseguem. Não desmereço essa luta e busca... mas essas mesmas pessoas deveriam possuir a sinceridade-sensibilidade pra assumir que são expressiva minoria na sociedade em que vivemos, e que sua experiência não é reprodutível para todos os demais. Ao fazer apologia dessa luta micro-cotidiana-de-rompimento-com-a-mesmice (que, deixo claro, acho importante), mas, chutar o pau das lutas coletivas ("movimento é pra quem tá parado") cria-se, sim, um antagonismo perigoso que é justamente o que o capital quer: isolem-se, lutem contra o pequeno horizonte de seu cotidiano, ou, em última instância, lutem por sua sobrevivência e deixe todo o resto, o grosso, o que determina mesmo as coisas, ao deus-dará.