terça-feira, 15 de setembro de 2009

Remo contra a noite

Apaga já a luz dessa navalha, madrasta das sombras.
Não necessito luzes para mirar o abismo de meu sangue,
em meio ao naufrágio de minha raça.
Apague-a, te digo;
apague-a contra tua própria cara com este sopro frio com que voa minha mãe.
E tu, criatura cega, não deixes escapar a corda que nos leva.

Eu remonto a noite junto a ti.
Vou remando contigo desde teu nascimento
com um fardo de espinhos e este sino inútil nas mãos.

Estão surdos lá.
Nenhuma pluma de anjo,
nenhum fulgor de céu logramos com tantas
(migrações arrancadas a alma)

Nada mais que esta viagem na tormenta
a favor de umas horas imóveis em ti, usureira da alvorada;
nada mais que esta insônia na corrente,
por um punhado de brasas,
por um par de arrasados corações,
por um farrapo de pele entre teus dentes frios.

Pequeno, tu voltas a nascer.
Deves seguir crescendo enquanto corre até a borra dos anos,
e eu escarvo o lume no tapete
onde algum passo teu foi marcado por um carvão maldito,
e arranco as raízes que te cobre os pés.

Há tanta sombra aqui por tão escassos dias,
tantas caras apagadas pelos farrapos da fortuna
para ver-te melhor,
tantos trotes de chuvas e animais na rampa do sonho
para ouvir-te melhor,
tantas carroças de ruínas que rodam com o trovão
para moer melhor teus ossos e os meus,
para precipitar a bolsa de seixos no despenhadeiro da bruma
e colocar-nos a ferver,
o mesmo que nos contos da velha feiticeira.

Pequeno, não olhes pra trás: são fantasmas do céu.
Não cortes essa flor: é o resquício vivo do inferno.
Não toques essas águas: são tão somente a sede que se condensa em lágrimas e em compaixão.
Não pises essa pedra que fere com o frequente sal de todos esses anos.
Não proves esse pão porque tem o sabor da memória e é áspero e amargo.
Não gires com a ciranda no portal das aparições,
não fujas com a luz, não digas que não estás.

Ela traz uma agulha e um punhal,
tecedora de geadas.
Te amarra para bordar a duração ou te arrebate ao fio de um relâmpago.
Se esconde em uma noz,
se disfarça de lamparina que cai no desvão ou de porta que se abre no tanque.
Corrói cada idade,
converte os espelhos em um ninho de buracos,
com os dentes velozes para a mordedura como um calafrio,
como o anuncio de teu porvenir neste dia que detém o passado.

Senhora, o que buscas não estás.
Saiu faz muito tempo de cara à avareza da luz,
e essa costa obstinada de pródigo sem padres para o regresso e o perdão,

e esses pés indefesos com que fazia rodar as ultimas moedas.
A quem chamas, ladra de misérias?
A ronquidão que escutas é tão somente a do trono perdido no jardim
e essa respiração é o ofego de algum pobre animal que escarva a saída.
Não há nenhuma migalha para ti, roedora de areias,
Este frio não é teu.
É um frio sem ninguem que se deixou esquecido não sei quem.

Criatura, esta é somente uma história de bruchas e de lobos,
estampas arrancadas à insônia de remotas avós.
E agora, onde vais com esta corda imóvel que nos leva?
Onde vai nesta barca só contra o revés do céu?
Quem me expulsa desde de meu coração como uma pedra cega contra a maresia de pedra
e abre umas roucas asas que irrompem igual a uma bandeira?

Silêncio. Está passando a neve de outro conto entre teus dedos.

(trabdução de poema de Olga Orozco)