sábado, 1 de dezembro de 2007

a língua

Vi no blog do Marcelo Montenegro (link à direita) e gostei bastante...






















a língua (douglas kim)

ela disse (com os olhos)
“pode olhar”
(porque as mulheres conseguem falar com os olhos –
antes de conhecer as mulheres eu não sabia que os olhos falavam)
e se mexeu daquele jeito, com aquele vestido que parecia uma língua
porque não era um vestido, era uma língua
lambendo aquele corpo daquele jeito só podia ser uma língua
(eu nunca imaginei que uma mulher pudesse vestir uma língua)
e fiquei com vontade de ser vestido
porque aquele vestido estava lambendo aquela mulher
(graças a Deus eu conheci as mulheres: minha vida mudou depois disso)
e quando ela olhava para trás
daquele jeito que eu aprendi que só as mulheres conseguem fazer
(eu não sou muito perspicaz, mas aprendo ouvindo e vendo)
eu me sentia mal
é, eu me sentia mal, porque eu não sabia o que fazer
(só os atores de Hollywood sabem o que fazer numa situação dessas, daquelas,
e eu não sou ator de Hollywood)
eu sou apenas um cara que quer ser língua
quero dizer
vestido
pra poder lamber as mulheres
só isso
minha ambição é ser vestido
se é que posso chamar de ambição
porque ambição requer – pode-se usar requer? – algo mais
ambição requer ambição
tipo aquele bicho que come o próprio rabo
(isso eu não aprendi com a mulheres, aprendi na escola mesmo)
mas pensando bem (porque as mulheres gostam de homens que pensam)
talvez eu tenha entendido mal
(porque eu aprendi a ler os olhos recentemente)
quem sabe ela estivesse apenas, como direi,
talvez ela estivesse apenas à vontade
daquele jeito que só as mulheres sabem ficar
à vontade
(se existe uma coisa que ambiciono – olha ela, a ambição, de novo -,
é saber relaxar como a mulheres)
mesmo quando estão com uma língua
principalmente quando estão com uma língua
(porque não é fácil estar com uma língua,
quem já conversou com alguém sabe do que estou falando)

Ao Comitê Central do futuro ofuscante (...) apresento em lugar do registro partidário todos os cem tomos dos meus livros militantes.

Primeira Introdução ao Poema


Caros
..........camaradas
......................futuros!
Revolvendo
.......a merda fóssil
......................de agora,
perscrutando
estes dias escuros,
talvez
..............perguntareis
..............................
.por mim. Ora,
começará
...............vosso homem de ciência,
afagando os porquês
.............num banho de sabença,
conta-se
.......que outrora
...................um férvido cantor
a água sem fervura
.........................
.combateu com fervor(1)
Professor,
.........jogue fora
...............as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
.................de mim
...........................de minha era.
Eu – incinerador,
............... eu – sanitarista,
a revolução
.................me convoca e me alista.
Troco pelo "front"
......... a horticultura airosa
da poesia –
...................fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
virgem
...............vargem
......................sombra
............................
.alfombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim."
Estes verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, –
bonifrates encapelados,
.......................
.descabelados vates –
entendê-los,
..............ao diabo!,
............................
.quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles -
..................mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
.........................ta
-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
...............se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
...........escarra a tuberculose;
putas e rufiões
...............numa ronda de sífilis.
Também a mim
.........a propaganda
........................cansa,
é tão fácil
.......alinhavar
.................romanças, –
mas eu
.........me dominava
.....................entretanto
e pisava
...........a garganta do meu canto.
Escutai,
..............camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
..............dos melífluos enxurros:
por cima
....... .dos opúsculos líricos,
eu vos falo
........... como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
...... à Comuna distante,
não como Iessiênin,
..............................
.guitarriarcaico.
Mas através
....... dos séculos em arco
sobre os poetas
.....................e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
................ .não como a seta
lírico-amável,
.............. que persegue a caça.
Nem como
........ ao numismata
...............
a moeda gasta,
nem como a luz
..............................
.das estrelas decrépitas.
Meu verso
......... com labor
.............
rompe a mole dos anos,
e assoma
..... a olho nu,
............... palpável,
........................
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
..............por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
.............
versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
........................como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
.................mas terrível.
Ao ouvido
.......... não diz
................ blandícias
............................
minha voz;
lóbulos de donzelas
........ de cachos e bandós
não faço enrubescer
..............................
.com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
.......
– tropas em parada,
e passo em revista
...........................o front das palavras.
Estrofes estacam
........... chumbo-severas,
prontas para o triunfo
........
ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
apontando
............... as maiúsculas
...........
abertas.
Ei-la,
.....a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
............................
.alerta para a luta.
Rimas em riste,
......sofreando o entusiasmo,
eriça
.......suas lanças agudas.
E todo
......este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
..................proletários do planeta,
cada folha
.............até a última letra.
O inimigo
...... da colossal
...............
classe obreira,
é também
meu inimigo
.................
figadal.
Anos
........de servidão e de miséria
comandavam
..............................
.nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
........ volume após volume,
janelas
...........de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
...........................
.saberíamos o rumo!
onde combater,
................ de que lado,
.........................
.em que frente.
Dialética,
......... não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
........
ao fragor das batalhas,
quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
..........................
que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
.....................
.– glória –
se arraste
após os gênios,
.................
merencória.
Morre,
.........meu verso,
....................como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
......sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
.........sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, –
....................
entre nós todos, –
o comum monumento:
o socialismo,
.............forjado
......................na refrega
..............................
......e no fogo.
Vindouros,
......varejai vossos léxicos:
............................do Letes
.............................
.brotam letras como lixo –
"tuberculose",
........"bloqueio",
.............."meretrício".
Por vós,
......geração de saudáveis, –
.......................um poeta,
......................com a língua dos cartazes,
lambeu
..........os escarros da tísis.
A cauda dos anos
...........faz-me agora
..................um monstro,
.........................
.fossilcoleante.
Camarada vida,
..........vamos,
.............para diante,
galopemos
.......pelo qüinqüênio afora.
Os versos
......para mim
.............não deram rublos,
............................nem mobílias
..................de madeiras caras.
Uma camisa
......lavada e clara,
.......................e basta, –
.........................para mim é tudo.
Ao Comitê Central
................do futuro
......................ofuscante
,
..........................sobre a malta
...................dos vates
velhacos e falsários,
......................apresento
..............................
...em lugar
do registro partidário
......todos
............os cem tomos
........................dos meus livros militantes.

dezembro 1929/janeiro 1930
Do livro "Maiakovski - Poemas"/Editora Perspectiva, 1982
(Tradução de Haroldo de Campos)

1. Maiakóvski escreveu versos de propaganda sanitária.