Amava ouvir essa música, abaixo, que conheci pela Aninha na voz de Renato Braz. A música chama-se "Comunhão" e é de Mário Gil. A melodia é bonita (Ouça a música aqui.), mas o que realmente me toca é a qualidade da letra. Através de 7 estrofes, 7 cenas, Mário consegue desenhar um romance, o drama amoroso e existencial de pessoas simples do interior do Brasil (apostaria que do interior mítico de Minas, pelas referências à Guimarães Rosa). A poesia tem uma composição sutil, suave. Consegue fazer estrofes de rima única não soarem enjoativas como muitos poeteiros fazem. O verso está medido em 10 passos (decassílabo), mas tem que ser medido junto com a música, no ritmo do trote de cavalo que é simulado na canção. Se vc fizer a escansão sem a música vai encontrar supostas irregularidades. Por exemplo: Ze-ca-boia-dei-ro-de-cai-có (8 passos), mas na música esse verso é escandido assim: Ze-ca-boi-a-dei-ro-de-ca-i-có (10 passos). Essa media muda apenas no refrão (um verso de 7) e na estrofe final. As tônicas dominante marcam o passo 5 e 10, mas as tônicas menores se alternam (tônica-átona-tônica) ajudando e acentuar a impressão de trote de cavalo.
Ouça a música aqui.
Nas 2 primeiras estrofes ele caracteriza os personagens principais através de suas profissões, há uma caracterização psicológica insinuada através das formas de trabalho.
Zeca Boiadeiro de Caicó
Filho de João Brabo e de Mãe Filó
Corta ribanceira do cafundó
Vida de vaqueiro, escravo de Jó
Rosa Bordadeira de Guaporé
Filha de Olinda e de Josué
Corta e borda o manto de São Tomé
Vida costureira trançada na fé
A 3a estrofe coloca os dois juntos numa festa mas ainda sem se conhecerem, insinuando para o leitor atento o que vai acontecer na estrofe seguinte.
Festa na Capela do Arpoador
Coco, arroz-doce e quentão
Zeca Boiadeiro de roupa de doutor
E Rosa de anel na mão
Repare que não conseguimos saber em que dedo o anel de Rosa está... isso será importante depois que chegarmos ao final do poema. É um anel de enfeite pra festa ou um anel de casada?
Dança na fogueira
Roda de calor
Zeca e Rosa em comunhão
Zeca e Rosa em comunhão
A 5a e a 6a estrofe descrevem a volta desses 2 personagens as suas vidas anteriores, que agora não são as mesmas. Através de pequenos detalhes, o autor nos dá sinais do que há de diferente. Por mais que a vida de Rosa pareça a mesma agora ela é terrivelmente a mesma, sufocantemente a mesma. Repare como ele consegue exprimir a "vida igual" de Rosa, pacata, vida de dona de casa beata, através da repetição exaustiva, sufocante, de objetos de seu cotidiano. Interessante ver a técnica cinematografica que Mário uso em todo o poema porém mais intensamente na descrição do cavaleiro que agora volta mais solitário do que antes: foco no casco, foco no arreio, foco no corte no paletó, abre e filma o cavaleiro. O sentido precisa ser construído na junção desses planos e depois estabelecendo relações com as cenas anteriores e com as posteriores (o que houve na festa? depois da festa?)... é um poema que exige 2 leituras.
Casco de cavalo batendo o pó
Couro de arreio amarrado a nó
Rasgo de punhal sob o paletó
Zeca Boiadeiro cansado e só
Linha, agulha, pano, retrós, dedal
Tanque, quarador, pregador, varal
Faca, escumadeira, feijão e sal
Rosa Bordadeira de vida igual
A estrofe final parece representar uma cena da família de Rosa depois de um corte temporal, o tempo desse corte não conseguimos avaliar.
Joça cerca o gado no Pantanal
Nina é moça e já tem dedal
Diolinda, Chico
Juca, Sebastião
Zinho, que é temporão
Juca vai à escola
Zinho vai crescer
E outro que ainda vai nascer
E outro que ainda vai nascer
Pra mim, há uma grande chave interpretativa no último verso. Reparem que no poema todo há apenas 2 versos que se repetem: "Zeca e Rosa em comunhão" e "e outro que ainda vai nascer". Mário não faria isso a toa, inclusive ele repete o mesmo fraseado melódico do refrão nesse trecho final. Dá pra construirmos uma hipótese aqui, não? Imaginando que o lapso temporal nesse corte (entre a 6a e 7a estrofe) não seja maior que 9 meses desde a comunhão de Rosa e Joca! Aos poucos vamos conseguindo visualizar o quadro maior e entender quem era Rosa. Quem seria Joça que trabalha no Pantanal? Seria seu marido que trabalha longe? E não teria Zeca sua família também, da qual sua profissão o obriga a se afastar periodicamente? Observamos a história do forasteiro-viajante-aventureiro que vem para quebrar a enfadonha vidinha de Rosa, lhe traz paixão (tão forte que rompe até mesmo com seus preceitos religiosos e contratuais com o marido) e um novo filho.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
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