quarta-feira, 26 de março de 2008

Algumas (tr)abduções de Nicolás Guillén

Nicolás Guillén, o poeta negro, em Havana. Clique aqui pra saber mais sobre ele.


Problemas do Subdesenvolvimento

Monsieur Dupont te chama de burro,
porque ingoras qual era o neto
preferido de Victor Hugo.

Herr Müller começou a gritar,
porque não sabes o dia
(exato) em que morreu Bismark.

Teu amigo, Mr. Smith,
inglês ou yanqui, eu não sei,
se revolta quando escreves shell.
(Parece que poupas um éle,
e, pior, que pronuncias chel.)

Olha só,
quando sacar qualé,
mande dizerem cacarajícara
e onde está o Aconcágua,
e quem era Sucre,
e em que lugar deste planeta
morreu Martí.

E, por favor:
que te falem sempre em espanhol.


A Fome

Esta é a fome. Um animal
todo canino e olho.
Nada o engana ou distrai.
Não se farta em uma mesa.
Não se contenta
com um almoço ou uma cena.
Anuncia sempre sangue.
Ruge como leão, aperta como jibóia,
pensa como pessoa.

O exemplar que aqui se oferece
foi caçado na Índia (subúrbios de Bombaim),
mas existe em estado mais ou menos selvagem
em outras muitas partes.

Não se aproxime.


Burgueses

Não me dão pena os burgueses vencidos.
E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.

Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem chapéus nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias.

Não passe, por favor. Isto é um clube.
A relação está cheia.
Não há vaga no hotel.
O senhor saiu.

Precisa-se de meninas.
Fraude nas eleições.
Grande baile para cegos.

Saiu o Prêmio Maior em Santa Clara.
Bingo para órfãos.
O cavalheiro está em Paris.
A senhora marquesa não recebe.
Enfim, e

que tudo recordo e como tudo recordo,
que porra me pede você pra fazer?
E, além do mais, pergunte-lhes.
Estou seguro que também
recordarão.