terça-feira, 18 de março de 2008

Ferreira Gullar, antes de virar suco III

Existir no mundo de hoje é existir em crise, esteja você consciente dos efeitos dessa crise em você ou não. O "mal-estar da civilização" se instala quando nascemos e convivemos em família. Mas se manifesta, radicalmente, apenas quando se faz necessário o encaixe dentro da engrenagem, a necessidade de adentrar o mundo do "trabalho". Ao contrário do que pensava Freud, nós, socialistas, sabemos, as causas desse "mal-estar" são concretas e históricas e não naturais. Por mais que lutemos contra a ordem, por mais que isso crie um chão de esperança comum, não é fácil existir, se sujeitar ao necessário para existir, não é fácil aceitar a contradição dentro, bem no meio do seu estômago te devorando pela manhã. Mas, por enquanto, não há outro caminho. Por mais que a revolta (individual ou organizada) se manifeste, as mudanças radicais estão colocadas num horizonte que, certamente, ultrapassará minha geração, ou melhor, minha e tua existência.

Gastar energia escrevendo poesia, nessas condições, é a cereja que faltava nesse bolo de angústia... A poesia pra mim, algumas vezes, quando o chão é só vertigem, se faz necessária (individualmente) mas quase nunca parece soar útil (socialmente). Nesses momentos em que não entendo mais porque escrever, sempre vou ler o Gullar das antigas...

"Num mundo sem deuses, o homem é responsável por seu próprio destino e por cada um de seus atos. A solução dos problemas agora depende exclusivamente de sua capacidade de compreender a realidade e de atuar sobre ela. Não há milagres: o homem cria a sua própria vida, produzindo e reproduzindo os meios de manter-se vivo como indivíduo e como espécie. Dividido em classe e nações presas a interesses contraditórios, ele atenta contra si mesmo e contra a natureza, mistifica-se e aliena-se em conceitos e preconceitos que o levam à produção de armas mortíferas capazes hoje de destruir a própria humanidade. Mas nenhum deus o salvará: só ele mesmo, na medida em que tome consciência do que deve ser feito e se una para fazêlo, poderá impedir a eclosão do apocalipse. Este é o mundo em que vivemos, banal e delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de despertar e cultivar o que há de humano no homem. Os poetas podem ajudar nisso. E não por mistificar a realidade mas, pelo contrário, por revelá-la na sua verdade, que é prosaica e, ao mesmo tempo, fascinante. O poeta sonha no concreto o sonho de todos. Ele sabe que a poesia brota da banalidade do mesmo modo que o poema nasce da linguagem comum. Está na tua boca, na minha boca, a palavra que eventualmente se converterá em beleza. Ou não." (em Poesia e a realidade contemporânea)

Texto na íntegra pode ser lido aqui.