terça-feira, 6 de maio de 2008

Paulo Henriques Britto II

A poesia "Um pouco de Strauss" vai pro Denis (Forsign) que quer fugir de si mesmo no que escreve, ser outro de si.

Um pouco de Strauss

Não escreva versos íntimos, sinceros,
como quem mete o dedo no nariz.
Lá dentro não há nada que compense
todo esse trabalho de perfuratriz,
só muco e lero-lero.

Não faça poesias melodiosas
e frágeis como essas caixinhas de música
que tocam a "Valsa do Imperador".
É sempre a mesma lengalenga estúpida,
sentimental, melosa.

Esquece o eu, esse negócio escroto
e pegajoso, esse mal sem remédio
que suga tudo e não dá nada em troca
além de solidão e tédio:
escreve pros outros.

Mas se de tudo que há no vasto mundo
só gostas mesmo é dessa coisa falsa
que se disfarça fingindo se expressar,
então enfia o dedo no nariz, bem fundo,
e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.


Já neste outro poema, Paulo ameniza o que disse. Agora, a existência torna-se mais importante e seu cansaço, o acúmulo de vida e experiência só se manifesta através de alguém, de um Eu que expresse essas qualidades de existência. Mas ainda coloca o cuidado com o que vai ser expresso. Interessante notar que na poesia que postei ontem ele valoriza as palavras que brotam antes mesmo que se possa analisar e que dizem justamente o que se busca. Palavras ditas antes (por quem?) com uma lucidez sonambúlica que a análise e construção racional do poema nunca proporcionariam. Contraditório, confuso ou não? Em suma, nunca confie em poetas que teorizam em seus poemas!

Cuidado, poeta, o tempo engorda a alma.
Depois de um certo número de páginas
anjos não pousam mais nas entrelinhas.
E até a lucidez, essa moderna,
também se gasta, como qualquer moeda.

O ter o que dizer é jogo arriscado,
não se resolve com um só lance de dados.
Não basta a precisão do gesto apenas.
O gesto mais felino é quase nada
sem o lastro da existência, essa cansada,

com sua textura por demais espessa
pra transpassar a tímida peneira
da pálida poesia, essa antiga.
O tempo é escasso. O dicionário é gordo.
Cuidado: todo silêncio é pouco.