quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

dando cabo à boa esperança

Estou """"feliz"""". Veja bem quantas aspas coloco nisso. A poesia "Pomba Negra" foi selecionada para publicação no concurso organizado pela CGTP (Central Geral dos Trabalhadores de Portugal). De todas as poesias enviadas (concorriam os países de língua portuguesa) foram selecionados 8 poesias e 9 contos para publicação. Fico """""feliz"""" por alguns motivos: por ter sido selecionado num concurso internacional (por mais que eu saiba que não são tantos países assim e também nem tantas poesias - menos de trezentas); por esse concurso ter um corpo de jurados muito bom (com os escritores portugueses Urbano Tavares Rodrigues, Domingos Lobo, José Carlos Vasconcelos); por ser uma poesia que gosto muito e que me tocou muito até sua finalização (apesar de saber que sou relaxado com a apuração do poema, isto é, que ainda há muitas arestas por lixar); por ser um concurso tendo como temática central o mundo atual e a vida dos trabalhadores, e, por fim, por ser um concurso de "luta"... isto é, um concurso organizado por uma das maiores centrais sindicais de luta de Portugal:

"Fiel às suas raízes históricas e coerente com a experiência, herança e objectivos da luta dos trabalhadores em todo o mundo, a CGTP-IN assume-se como uma organização sindical de classe. De classe, porque reconhece o papel determinante da luta de classes na evolução histórica da humanidade e visa defender os legítimos direitos, interesses e aspirações colectivas e individuais das trabalhadoras e dos trabalhadores portugueses, nas suas múltiplas dimensões de cidadãos e criadores de riqueza material e espiritual, e visa promover a sua emancipação cívica, económica, social e cultural, combatendo as injustiças, as desigualdades, as discriminações, as exclusões, o egoísmo, o racismo, a xenofobia, a alienação cultural e a exploração económica do sistema capitalista,na perspectiva histórica da edificação de uma sociedade sem classes."

Acima de tudo, que esta publicação estampe pralém mares os horrores do capitalismo e o vazio de sentidos em que ele nos engendra. Que sirva de promessa de revolta. Só a revolta contra esse mundo em que nascemos, contra as engrenagens que ajudamos a girar, contra o capital, pode rememorar devidamente o rapaz (pomba negra) que vi se suicidar na minha faculdade (Unicamp) e que motivou este poema.

Este ano me indicou algumas coisas... com o surgimento deste blog (que mais ou menos funcionou), com a retomada da escritura (que mais ou menos funcionou) e com algumas premiações e reconhecimentos (que foram mais ou menos interessantes)... tudo isso mais ou menos me aponta a possibilidade de investir mais nesse terreno que até agora joguei menos energia... algo ainda que preciso resolver aqui dentro, os caminhos a seguir... uma coisa é clara e já disse outras vezes neste blog: não quero ser poeta... tenho quase vergonha de ser reconhecido como um... Eu quero mesmo é ser humano. E se escrever faz parte dessa luta (que é sobretudo material e prática) é uma questão que tenho que resolver. Segue um trechinho do Pomba Negra que é um poema de fôlego, literalmente.

não tinha amigos?
não tinha mais desejos?
vontade de encher a cara?
tomar um milkshake de morango?
assistir tv?

experimentara muito? tudo? nada?

não bastava viajar nas férias?
beijar mais mulheres?
Fuder?
Socar alguém?
Liquidar cruelmente seu arqui-inimigo?

não tinha mais a vida?
e não havia outra
que emprestar de alguém?
que comprar?
alugar?
não havia mais como sustentar
farsa mínima em que se agarrar?
um diploma?
um filho?
um caso?
uma coisa qualquer?