sábado, 31 de janeiro de 2009

Alípio Freire

31 de Março de 1992 (Alípio Freire - "Estação Paraíso")

O velho anota
no metrô
seu poema
velho
da vitória
do que houve
de mais velho
quando era
demais jovem

Ninguém
além do velho
se interessa
por seu poema
antiquado

Sem rima
e sem metro

O velho do metrô
usa óculos e bigodes
e nos pés
um par de tênis
surrados

sem laço
e sem cadarço

com a memória em 64
os pés em 22
a cabeça em 68
e o coração sem tempo
o velho anota
seu poema

datado.

Mulheres de todas as idades
entram e saem do metrô
do mesmo modo como o fizeram
na vida do velho.

Pernas verdes amarelas azuis e brancas
pernas vermelhas
- para que tanta perna, meu deus?! - considera o velho.

Mas as pernas passam
as mulheres passam
os anos passam
a vida passa
tudo na vida passa
e envelhece.

Rejuvenescido pela poesia que passa
o velho sorri um sorriso ateu
ciente de que o metrô
não é o trem d'a História
e de que deus não existe

Assim, desembarca no Paraíso

O velho sorri solitário
e despojado de expectativas

No metrô
No gare
Na vida

O velho deixa a estação
mergulha na chuva fina da noite
declina qualquer auto-enternecimento ou comiseração pública
faz xixi numa árvore da esquina
e prossegue em direção ao vazio
assobiando uma velha melodia.

Por que não?