Uma tradução antiga que fiz dum poema de José Martí, poeta e revolucionário cubano. Não amo esse poema mas amo alguns versos dele e por isso traduzi (além de achar sua vida e obra - que são indissociáveis - fantásticas!). Busquei manter o ritmo do poema o mais próximas do original. Quando isso não foi possível, inventei uma solução.
Como de um incensário se esvai o perfume
assim de minha dor se escapa o verso:
nutro-me dessa dor que me consome
de onde vim, para aí vou: ao universo.
Sou círio ardente em meio a tormenta:
o fogo em que brilho me dilacera
e em lugar de apagar-me me alimenta
o vendaval que ao covarde desespera.
Eu nunca durmo: ao despertar noto
em mim o cansaço de uma grã-jornada
onde caminho a noite quando, morto
o corpo, afundo a face à almofada.
Quem, quando luto e contra algum mal postro
minhas forças, me unge com a estrofe branda?
E do lume do amor me banha o rosto?
E abrir as asas e anunciar me manda?
Quem pensa em mim? Quem fala por meus lábios
coisas que em vão impedir eu bem tento?
De onde vêm esses conselhos sábios?
Pra onde vão sem rédeas os pensamentos?
Já não me queixo, não!, como fazia
de minha dor, silencioso e infecundo
cumpro com meu dever de cada dia
e espero ferir e curar o mundo.
Já não me aflijo, não!, nem me desolo
de me ver ilhado em difícil luta.
Vai com a eternidade o que vai só,
a quem se ouve quando à ninguém se escuta.
Que fui, não sei: jamais teve lugar
sobre meu amor-ao-homem amor algum
e jogo ao chão e me ponho a pisar
qualquer outro amor, minguado e importuno.
A liberdade adoro e o direito.
De ódios não sofro, nem de paixões más:
E na couraça que me veste o peito
uma águia de luz esplende suas asas.
Vão é que por amor se chore ou interceda.
Ao limpo sol tenho as armas jurado
e sofrerei à sombra até que veja
meu punhal de aço em pleno sol cravado.
Como uma luz, a férvida palavra
aos temerosos lábios vem e se soma:
que não há medo cuja porta se abra
se antes o ódio e a paixão não se doma.
Que fui, não sei: porém sei que dei um beijo
a uma gigante e bondosa mão
e, desde então, por onde falo, deixo
impresso nos homens o amor de irmãos.
Já não me importa que a frase ardente
morra em silêncio ou em casa obscura:
amo e trabalho e assim, noturnamente,
nutre o rio à selva em espessura.
sábado, 23 de junho de 2007
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