quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Reinaldo Ferreira


Cheguei até esse poeta português (Reinaldo Ferreira) por causa do poema abaixo "Receita para fazer um herói". Esse figura viveu pouco mas tem umas boas histórias. Era jornalista e costumava escrever ficções de assassinatos e passá-las para o jornal como casos reais, sem deixar claro que eram folhetins. Publicou entrevistas imaginárias com Marta Hari e Conan Doyle além de mandar reportagens da Rússia comunista sem nunca ter estado lá... Bom, vc pode achar também que tudo isso é invenção minha e que não existe esse tal de Reinaldo e que só coloquei uma foto aí do lado pra dar mais legitimidade pra este post... concordo, pode ser mesmo. De qualquer forma, segue "Receita..." (que foi gravada numa bonita versão pelo Ira! que só tempos depois descobriu de quem era a poesia!) e "O Futuro".

Receita para fazer um Herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.

Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.

Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.


O Futuro

Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários